Entregar não é delegar
Padre Douglas da Silva Gonzaga
administrador paroquial da Paróquia Nossa Senhora Aparecida — Vila Zatt, Arquidiocese de São Paulo · ordenado presbítero em dezembro de 2024
Sobre a encíclica que pede para 'desarmar' a inteligência artificial, a Semana da Família que ele dedicou ao tema e o que, numa casa, nenhuma máquina substitui.
A ferramenta pode me ajudar a pensar, mas não deve me dispensar de pensar.
Há padres que falam da inteligência artificial de longe, como quem comenta o noticiário; e há quem a tenha trazido para o centro da própria Semana da Família. Padre Douglas da Silva Gonzaga pertence ao segundo grupo. Crismado em 2014, na Paróquia Santa Maria Madalena, procurou a Pastoral Vocacional no ano seguinte, entrou no seminário em 2016 e foi ordenado presbítero pelo cardeal Odilo Scherer, na Basílica de Sant’Ana, no fim de 2024. Hoje, aos 28 anos e com menos de dois de presbiterado, administra a Paróquia Nossa Senhora Aparecida, na Vila Zatt, zona norte de São Paulo — a mesma Nossa Senhora a quem confiou o ministério no dia em que foi ordenado.
Chama atenção a escolha. Podia ter dedicado a Semana da Família da paróquia a qualquer tema seguro; preferiu o mais espinhoso da hora, a inteligência artificial — e reservou para si o encerramento, numa fala que chamou de “A Magnífica Humanidade diante de Cristo”, decalque da encíclica Magnifica Humanitas, do Papa Leão XIV, com duas palavras a mais. Aqui na Toca, quando a conversa chega à pergunta sobre o que a máquina não é capaz de substituir, é para gente como ele que ela costuma se voltar: quem cuida, no varejo de uma comunidade de periferia, dos vínculos que a tecnologia promete e nem sempre entrega. Conversamos sobre a vocação de um padre jovem, sobre o que a Igreja tem a dizer às famílias na era da IA e sobre o que, dentro de uma casa, continua sendo humano.
1. Ordenado há pouco mais de um ano, em dezembro de 2024, nesta primeira Semana da Família como administrador teve liberdade para definir o tema. Optou pela inteligência artificial. Antes de virar uma tese, uma escolha dessas costuma nascer de algo visto de perto: uma conversa, uma cena, um silêncio. O que andou vendo na Vila Zatt que fez um padre recém-ordenado concluir que era sobre este tema, e não outro, que as famílias daqui precisavam ouvir?
Não foi uma cena específica, mas uma preocupação pastoral. Como Igreja, não podemos ignorar as transformações do nosso tempo. Precisamos ajudar as famílias a compreender essas mudanças, discernir seus benefícios e reconhecer também os riscos que elas podem trazer para a convivência, o diálogo e a formação.
Como padre há pouco tempo e jovem, entendo que a nossa missão não é simplesmente apontar os problemas do mundo atual, mas oferecer caminhos para que as pessoas vivam sua fé de maneira concreta, dentro da própria realidade. Escolher esse tema foi uma forma de provocar uma reflexão sobre o lugar que a tecnologia ocupa em nossas casas e, sobretudo, sobre o espaço que continuamos reservando para a presença, a escuta e o amor.
A inteligência artificial pode ser uma grande aliada, mas não pode substituir aquilo que é essencialmente humano: o encontro, o afeto, o cuidado e a capacidade de reconhecer o outro em sua dignidade.
2. Nasceu em 1998, é da primeira geração que nunca conheceu uma casa sem tela ligada. Agora está do outro lado do altar, olhando para famílias em que cada um está com o próprio celular na mão, mesmo sentados na mesma sala. Da casa em que cresceu para as casas que visita hoje como padre, o que de fato mudou na maneira como uma família convive e o que permanece?
Acredito que uma das mudanças mais significativas seja a intensidade com que as telas passaram a ocupar o nosso tempo e a nossa atenção. Embora eu tenha nascido em uma geração que já cresceu em contato com a tecnologia, quando entrei no seminário, em 2016, a relação com as telas era diferente. Hoje, percebemos que o celular está muito mais presente em praticamente todos os momentos do dia, inclusive naqueles que deveriam ser dedicados às convivências.
Isso muda a maneira como nos relacionamos. Às vezes, as pessoas estão fisicamente próximas, sentadas à mesma mesa ou no mesmo ambiente, mas emocionalmente distantes, porque cada uma está concentrada no próprio mundo digital. E a convivência familiar exige justamente o contrário: tempo, escuta, diálogo e disponibilidade para o outro. Não basta dividir a mesma casa; é preciso construir uma vida em comum, o que talvez nos faça pensar se essas coisas realmente existiam antes das telas.
Por outro lado, acredito que há algo que permanece: a necessidade humana de amar e ser amado, de pertencer, de ser ouvido e acolhido. As famílias continuam buscando proximidade, segurança e afeto. A tecnologia não criou essas necessidades, mas trouxe novos desafios para vivê-las.
Por isso, não penso que precisamos “demonizar” as telas ou ignorar os benefícios que elas oferecem. A questão é aprender a utilizá-las com equilíbrio e consciência.
A família continua precisando de presença, diálogo e amor. E nada disso pode ser substituído por uma tela.
A família continua precisando de presença, diálogo e amor. E nada disso pode ser substituído por uma tela.
3. A Semana tem quatro noites e quatro vozes: “O corpo humano na era digital”, “Conhecer para discernir”, “A família diante da Inteligência Artificial” — e o encerramento, “A Magnífica Humanidade diante de Cristo”, é seu. É o título da encíclica de Leão XIV, Magnifica Humanitas, com duas palavras a mais: diante de Cristo. O que muda na humanidade quando ela é posta diante de Cristo, e não diante da máquina?
Quando colocamos a humanidade diante de Cristo, recuperamos aquilo que está no centro da nossa fé: a dignidade de cada pessoa humana, criada à imagem e semelhança de Deus e chamada a viver em comunhão com Ele. A máquina pode realizar muitas tarefas, processar informações e até nos ajudar a compreender melhor a realidade, mas Cristo nos revela algo que nenhuma tecnologia é capaz de substituir: o valor de cada pessoa, que não depende daquilo que ela sabe, produz ou consegue fazer, mas do amor com que Deus a criou e a chama para si.
Diante de uma máquina, corremos o risco de avaliar o ser humano pela sua eficiência, pela sua capacidade de produzir ou pela quantidade de informações que possui. Diante de Cristo, porém, descobrimos que somos muito mais do que aquilo que fazemos. Somos pessoas amadas por Deus, com uma história, uma liberdade, uma consciência e uma vocação para amar.
É isso que contemplamos na própria vida de Jesus. Ele se aproximava dos pobres, dos doentes, dos pecadores e daqueles que muitas vezes eram deixados de lado pela sociedade. Cristo não enxergava as pessoas apenas pelas suas limitações ou pela sua utilidade, mas reconhecia nelas uma dignidade que precisava ser acolhida e restaurada. E é esse olhar que também somos chamados a ter, especialmente dentro das nossas famílias.
Por isso, o tema da inteligência artificial nos leva a uma questão muito maior do que a tecnologia: que humanidade queremos construir? Uma humanidade que confia apenas naquilo que consegue produzir ou uma humanidade que reconhece que a vida, o amor e a dignidade não podem ser reduzidos a cálculos e resultados?
Colocar a humanidade diante de Cristo não significa rejeitar os avanços tecnológicos, mas aprender a orientá-los a serviço da pessoa humana. A tecnologia deve ajudar a vida, nunca diminuir o valor de alguém ou ocupar o lugar das relações que dão sentido à nossa existência.
No fundo, diante de Cristo, compreendemos que o maior progresso não é aquele que nos torna capazes de fazer cada vez mais coisas, mas aquele que nos ajuda a amar melhor. Porque, no cristianismo, a grandeza da humanidade se revela plenamente em Jesus, que nos ensina que fomos criados por amor e para amar.
4. O cartaz da Semana promete “fortalecer os vínculos que nenhuma tecnologia pode substituir”. Só que essa fronteira é escorregadia: a mesma chamada de vídeo que aproxima quem mora longe pode ser exatamente o que passa a substituir a visita que ninguém faz mais. Na prática, dentro de uma família, como saber a hora em que a ferramenta deixou de ajudar o vínculo e começou a ocupar o lugar dele?
Penso que o principal critério seja perceber se a tecnologia está nos ajudando a estar mais próximos ou se está nos afastando das pessoas que estão ao nosso lado. A mesma ferramenta pode ser muito positiva em determinadas situações e, em outras, acabar ocupando um espaço que deveria ser reservado à presença e ao encontro.
Uma chamada de vídeo, por exemplo, pode aproximar uma família que vive em cidades diferentes e manter vivos os laços de afeto. O problema começa quando a facilidade de estar conectado passa a justificar a ausência, mesmo quando temos a possibilidade de estar presentes. Às vezes, mandamos uma mensagem para alguém que está dentro da nossa própria casa, mas já não encontramos tempo para sentar, olhar nos olhos e conversar.
Acredito que precisamos recuperar algumas perguntas muito simples: o uso da tecnologia está melhorando a nossa convivência? Estamos conseguindo escutar uns aos outros? Temos tempo para conversar, partilhar as refeições e perceber quando alguém da família não está bem? Ou estamos tão ocupados com as telas que já não percebemos o que acontece na vida de quem está perto de nós?
Não se trata de estabelecer regras rígidas para todas as famílias, porque cada realidade tem suas particularidades. Trata-se de aprender a fazer escolhas conscientes. Uma família pode, por exemplo, combinar momentos sem celular durante as refeições ou reservar um tempo do dia para conversar sem interrupções. São atitudes simples, mas que ajudam a recuperar o valor da presença.
Do ponto de vista cristão, isso tem um significado muito profundo. Jesus não nos amou à distância: Ele se fez humano, entrou na nossa história e veio habitar entre nós. A encarnação nos recorda que o amor também se expressa na proximidade, na escuta, no toque, no cuidado e na disponibilidade para o outro.
Por isso, eu diria que a tecnologia começa a ocupar o lugar do vínculo quando deixa de ser um meio para nos aproximar e passa a nos dispensar do esforço de amar. Porque amar exige tempo, presença e disposição para sair de nós mesmos.
A tecnologia começa a ocupar o lugar do vínculo quando deixa de ser um meio para nos aproximar e passa a nos dispensar do esforço de amar.
5. O papa escolheu se chamar Leão XIV mirando Leão XIII, que enfrentou a revolução industrial com a Rerum Novarum, em 1891 — e não são poucos os que acham que, naquela época e em outras, a Igreja chegou tarde ao debate do seu tempo. Agora ela quer falar de inteligência artificial quase em tempo real. Sendo jovem, sente o risco de a Igreja soar saudosista, defendendo um mundo analógico que não volta mais?
Esse risco existe quando a Igreja fala da tecnologia apenas para condená-la ou quando parece que a solução para os desafios de hoje seria simplesmente voltar ao passado. Não é esse o caminho. A Igreja não é chamada a defender um mundo que já não existe, mas a anunciar o Evangelho no mundo em que vivemos.
A escolha do nome Leão XIV nos recorda justamente a importância de olhar para os desafios de cada época. Leão XIII, diante das profundas transformações provocadas pela Revolução Industrial, publicou a Rerum Novarum, em 1891, e ajudou a Igreja a refletir sobre as condições de trabalho, a dignidade dos trabalhadores e as responsabilidades da sociedade. Naquele contexto, a Igreja foi chamada a discernir como a fé cristã poderia iluminar uma realidade que estava mudando profundamente a vida das pessoas.
Hoje, estamos diante de outra grande transformação. A inteligência artificial traz oportunidades, mas também levanta questões sobre o trabalho, a educação, as relações humanas e a própria compreensão do que significa ser pessoa. A Igreja precisa participar desse debate, não porque tenha todas as respostas técnicas, mas porque tem uma contribuição importante a oferecer quando se trata da dignidade humana, da ética e do sentido da vida.
E penso que nós, jovens, temos uma responsabilidade especial nisso. Conhecemos os benefícios da tecnologia, fazemos uso dela e reconhecemos que ela já faz parte da nossa realidade. Por isso, não precisamos ter medo de dialogar com o mundo digital. Precisamos, sim, aprender a discernir o que realmente contribui para o bem das pessoas.
A Igreja não precisa competir com a tecnologia, nem tentar oferecer respostas imediatas para todas as novidades. Sua missão é ajudar a humanidade a não perder de vista aquilo que é essencial, mesmo quando tudo ao redor se transforma.
O Evangelho não é analógico nem digital: ele é a Boa-Nova de Jesus Cristo, que precisa ser anunciada em todas as épocas e em todas as realidades. A questão não é voltar ao mundo de ontem, mas garantir que, no mundo de amanhã, o ser humano continue sendo respeitado em sua dignidade e reconhecido em sua vocação para amar.
Se a Igreja conseguir dialogar com o presente sem abrir mão daquilo que recebeu de Cristo, não será uma instituição saudosista, mas uma presença viva, capaz de oferecer esperança e discernimento também às novas gerações.
6. Hoje já há pessoas a levar as dúvidas de fé, a culpa e o sofrimento a um chatbot; perguntam ao aplicativo o que antes perguntariam a um padre e recebem uma resposta educada, disponível a qualquer hora, que nunca as julga. Faz parte do seu ofício atender pessoas em confissão; o que o sacerdote oferece nessa escuta ativa que uma inteligência artificial treinada para consolar não consegue dar, e o que impede a Igreja de perder fiéis para a tela?
Precisamos começar reconhecendo que, quando alguém procura um chatbot para falar sobre sua fé, sua culpa ou seu sofrimento, muitas vezes está procurando um lugar onde possa ser ouvido sem medo de ser julgado. E isso precisa nos fazer refletir como Igreja. Porque, antes de oferecer respostas, precisamos estar dispostos a escutar as pessoas, acolher suas histórias e reconhecer suas feridas.
Quem procura um padre nem sempre chega com uma pergunta teológica ou querendo uma orientação moral. Às vezes, chega depois de muitas tentativas, carregando dores que não conseguiu partilhar com ninguém. Há pessoas que entram na igreja sem saber muito bem o que dizer, mas que precisam encontrar alguém disposto a ouvi-las. Em algumas situações, o sacerdote pode ser uma das últimas pessoas a quem elas recorrem em busca de esperança, de um sentido para continuar e de um motivo para não desistir.
Uma inteligência artificial pode oferecer informações, ajudar alguém a organizar os pensamentos e até proporcionar uma primeira sensação de acolhimento. Não precisamos negar essas possibilidades. Mas existe uma diferença fundamental: o sacerdote não oferece apenas uma resposta; ele é chamado a oferecer uma presença. Ele escuta uma pessoa concreta, com uma história que não se resume àquilo que ela consegue escrever ou explicar. E essa escuta acontece no contexto de uma relação humana, de uma comunidade de fé e de um acompanhamento que pode continuar ao longo do tempo.
Na confissão, isso se torna ainda mais profundo. O sacramento da Reconciliação não é uma conversa de aconselhamento nem uma simples experiência de alívio emocional. É o encontro sacramental do penitente com a misericórdia de Deus, por meio do ministério da Igreja. O sacerdote não substitui Cristo nem é a fonte do perdão: é instrumento de sua graça. Uma ferramenta digital pode falar sobre o perdão, mas não pode celebrar esse sacramento nem conceder a absolvição sacramental.
Mas penso que a pergunta mais importante talvez não seja o que a inteligência artificial não consegue oferecer, e sim o que nós, sacerdotes, precisamos oferecer melhor. Não podemos exigir que as pessoas procurem a Igreja se, quando chegam, não encontram tempo, escuta ou acolhimento. Não basta termos respostas corretas; precisamos aprender a nos aproximar das pessoas com a caridade de Cristo, sem deixar de anunciar a verdade do Evangelho.
E isso não significa concordar com tudo ou deixar de orientar. Significa compreender que, muitas vezes, antes de conseguir escutar uma orientação, a pessoa precisa descobrir que não será reduzida ao seu pecado, à sua fragilidade ou ao momento difícil que está vivendo. Jesus não ignorava o pecado, mas também não permitia que o pecado fosse a última palavra sobre a história de alguém.
Por isso, não acredito que a Igreja deva disputar espaço com as telas como se estivesse competindo por usuários. Sua missão é anunciar Jesus Cristo e tornar presente, por meio de seus ministros e de toda a comunidade, o amor que Ele tem por cada pessoa. Se alguém encontra na tecnologia um primeiro espaço para expressar sua dor, precisamos nos perguntar como podemos ajudá-lo a dar o próximo passo em direção a relações humanas, à comunidade e, quando necessário, ao acompanhamento pastoral ou profissional.
No fundo, as pessoas não precisam apenas de alguém que responda às suas perguntas a qualquer hora. Precisam saber que sua vida importa, que não estão sozinhas e que existe um caminho possível mesmo quando tudo parece perdido. E nós, como Igreja, precisamos ser capazes de testemunhar isso não apenas com palavras, mas com a nossa presença.
O que impedirá a Igreja de perder sua relevância não será a capacidade de responder mais rápido do que uma máquina, mas a fidelidade a Cristo, que se aproxima de quem sofre, escuta quem não é ouvido e devolve esperança a quem já não consegue encontrá-la sozinho. Porque, muitas vezes, o primeiro anúncio do Evangelho acontece quando alguém, que já não esperava ser acolhido, encontra na Igreja uma porta aberta, um coração disponível e a possibilidade de recomeçar.
O que impedirá a Igreja de perder sua relevância não será a capacidade de responder mais rápido do que uma máquina, mas a fidelidade a Cristo.
7. Existe um paradoxo em pregar limite à tela sendo o padre da geração do smartphone: a paróquia está no Instagram, a comunidade é atendida por aplicativo e a homilia — como a própria encíclica — é preparada na mesma tela de que se desconfia. Sem discurso, na vida concreta: onde se observa ultrapassando a linha que prega, e que limites se impõe ao uso do celular?
Acho que seria incoerente falar sobre o uso responsável da tecnologia sem reconhecer que também sou atravessado por esses desafios. Apesar da pouca idade, não sou dos padres mais tecnológicos que existem. Não tenho o hábito de me expor nas redes sociais e procuro preservar minha vida pessoal, porque acredito que nem tudo precisa ser compartilhado. Para mim, é importante compreender que existe uma diferença entre utilizar a tecnologia como ferramenta de trabalho e permitir que ela determine a maneira como vivemos.
Hoje, o celular faz parte de muitas atividades do meu ministério: a comunicação com a comunidade, a organização da paróquia, os estudos e a preparação das homilias. Ele é uma ferramenta importante, mas justamente por estar presente em tantas dimensões da minha vida, preciso estar atento para que não ocupe espaços que deveriam ser dedicados a outras coisas.
Inclusive, estabeleci um limite de duas horas diárias para o uso do Instagram. É uma maneira concreta de tentar manter o controle sobre o tempo que dedico à rede social. Afinal, quando não estabelecemos limites, corremos o risco de passar muito mais tempo conectados do que imaginávamos, sem necessariamente perceber o que estamos deixando de viver.
Outra dificuldade da vida sacerdotal é perceber que o trabalho nem sempre termina quando saímos da igreja. As mensagens continuam chegando, as demandas se acumulam e sempre parece haver algo que precisa ser resolvido. Como padre e administrador paroquial, preciso aprender que estar disponível para as pessoas não significa estar conectado a todo momento. Se não estabelecer limites, corro o risco de estar sempre respondendo a alguém, mas nem sempre estar verdadeiramente presente para quem está diante de mim.
Por isso, procuro preservar meus momentos de oração, descanso e convivência com meus amigos e minha família. São espaços importantes para recuperar as forças e recordar que a vida não pode ser reduzida às tarefas que temos para cumprir.
8. No dia em que foi ordenado, entregou o ministério às mãos de Nossa Senhora — confiou, colocou a vida em outras mãos. O medo da encíclica é quase o gesto inverso: entregar a um algoritmo, delegar à máquina, decisões que eram nossas, até as de vida e morte. A palestra de encerramento se chama, justamente, “diante de Cristo”. Onde fica a linha entre entregar-se a Deus e delegar à máquina — o que, numa vida, pode ser deixado à inteligência artificial sem deixar de ser seu?
Acho que a diferença está naquilo a que entregamos nossa confiança e na responsabilidade que continuamos assumindo. Quando, no dia da minha ordenação, confiei meu ministério a Nossa Senhora, não estava pedindo que ela vivesse a minha vocação por mim, mas que me ajudasse a ser fiel a Cristo. A entrega a Deus não anula a nossa liberdade; pelo contrário, dá sentido a ela.
Penso que esse é um critério importante para o uso da inteligência artificial. Posso recorrer a ela para pesquisar, organizar ideias, estudar um documento ou preparar uma homilia. Mas não posso entregar a um algoritmo a decisão sobre aquilo em que acredito, os valores que orientam minha vida ou a maneira como devo agir diante de uma situação humana concreta. A ferramenta pode me ajudar a pensar, mas não deve me dispensar de pensar.
Na vida sacerdotal, isso se torna muito concreto. Posso utilizar a tecnologia para preparar uma reflexão, mas preciso confrontá-la com o Evangelho, com o ensinamento da Igreja e com a realidade das pessoas a quem vou falar. Uma homilia não é apenas um texto bem escrito: é também fruto da oração, do estudo e da responsabilidade de anunciar a Palavra de Deus a uma comunidade concreta.
Há, porém, uma dimensão ainda mais profunda. Quando uma pessoa me procura em sofrimento, posso até recorrer a recursos que me ajudem a compreender melhor determinada situação, mas não posso terceirizar o discernimento sobre como acolhê-la e acompanhá-la. A pessoa que está diante de mim não é um problema a ser resolvido por um sistema; é alguém cuja dignidade exige respeito, cuidado e responsabilidade.
Por isso, acredito que podemos deixar a inteligência artificial fazer por nós aquilo que é instrumental, sem entregar a ela aquilo que exige uma decisão verdadeiramente pessoal. Ela pode ajudar a preparar uma viagem, resumir um documento ou organizar uma agenda. Mas não pode assumir o compromisso que faço com alguém, responder pela minha consciência ou decidir em meu lugar o que é justo e bom.
No fundo, a questão não é ter medo de delegar tarefas, mas saber o que não pode ser delegado. Podemos confiar à tecnologia parte do nosso trabalho, mas não podemos entregar a ela a direção da nossa consciência. A máquina pode contribuir para as nossas escolhas; a responsabilidade por elas continua sendo nossa.
E talvez seja justamente isso que significa estar diante de Cristo: reconhecer que a liberdade que recebemos é também uma responsabilidade. Deus não nos pede que deixemos de pensar, mas que aprendamos a discernir; não nos pede que renunciemos à inteligência, mas que a coloquemos a serviço da verdade e do amor. A tecnologia pode ampliar nossas capacidades, mas é a maneira como escolhemos utilizá-la que revela quem somos e a serviço de que colocamos a nossa vida.
Podemos confiar à tecnologia parte do nosso trabalho, mas não podemos entregar a ela a direção da nossa consciência.
Onde encontrar Padre Douglas: na Paróquia Nossa Senhora Aparecida — Vila Zatt, que administra, e no Instagram da comunidade, @nsazatt. O ciclo “Família e Inteligência Artificial: desafios, discernimento e fé”, que ele encerrou com a palestra “A Magnífica Humanidade diante de Cristo”, aconteceu na paróquia entre 12 e 15 de agosto de 2026.