A mentira é antiga; nova é a escala
Rodney Amador
Analista de pesquisa · Doutorando em Ciência Política na USP · Professor na pós-graduação da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo
Estuda como se fabrica um eleitor, do clientelismo dos anos 1940 aos algoritmos de 2026. Sobre a regulação que não vem, os deepfakes que já chegaram e o que, na política, continua irredutivelmente humano.
Perder de vista o humano quando se fala de máquina é um erro que pode custar caro no futuro.
Rodney Amador começou historiador e se tornou cientista político do voto — a migração de quem trocou a narrativa pelo dado sem nunca largar o olho no passado. Formou-se em História em Taubaté, em Ciências Sociais na USP e fez ali o mestrado em Ciência Política, orientado por um dos grandes nomes da área, Fernando Limongi. Aqui na Toca, quando a conversa é sobre o que a inteligência artificial faz com uma eleição, é com ele que a gente quer dialogar ao ter, ao mesmo tempo, o dado de agora e a memória longa da política brasileira.
Antes do analista veio o professor. Deu aula na rede pública e, de forma voluntária, em cursinho popular muito antes de se dedicar à pesquisa e à planilha. Aliás, continua professor, agora na Pós-graduação da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo. Resume a contribuição que tem a dar em “pensar historicamente”. É a chave dele: quase tudo o que parece novidade na política já teve um ensaio décadas atrás. Foi daí que partimos para a conversa a seguir.
1. Você passou anos estudando a máquina eleitoral de Adhemar de Barros — o político do “rouba, mas faz” — e sobre como o PSP paulista fabricava eleitor no fim dos anos 1940. Não é um tema óbvio para quem hoje trabalha com pesquisa de opinião e inteligência artificial. De onde vem o interesse de entender, na raiz, como se conquista um voto?
Pode parecer estranho, mas a forma como o voto é “conquistado”, por assim dizer, ainda é um ponto de grande divergência entre os cientistas políticos. Há mais de uma explicação e certamente mais de um fator para explicar (ou pelo menos compreender) a escolha que o eleitor faz ali, na frente da urna. Inicialmente: trata-se efetivamente de uma escolha? Se é uma escolha, o que a orienta? Se o voto é conquistado, ele é de fato escolha do eleitor ou é imposto a este pelo político/partido? Todas essas questões, quando comecei a estudar política no Brasil, passaram a me interessar muito e, meio que por acaso, acabei escolhendo o caso de Adhemar de Barros em São Paulo como um lugar para tentar oferecer alguma contribuição a essas questões.
Acho importante situar alguns pontos tanto a respeito do meu trabalho quanto a respeito da minha área de estudos, que costumamos chamar de história eleitoral ou – um nome mais pomposo – “instituições democráticas em perspectiva historicamente comparada”. Como o nome diz, me interessa principalmente pensar estas questões de um ponto de vista histórico: o que mudou, o que não mudou, quem se empenhou para mudar ou para deixar como está. Esta perspectiva coloca o problema do voto em um patamar nem sempre destacado pelos estudos institucionalistas ou comportamentais do voto: votar hoje é a mesma coisa de 50, 60, 70 anos atrás? Refletir sobre isso já indica uma questão importantíssima pontuada na pergunta: Adhemar, o homem do rouba, mas faz.
Adhemar de Barros ficou conhecido no folclore político brasileiro como um político corrupto, chegado a práticas de improbidade, tanto na administração quanto nas eleições – sendo o principal exemplo a famosa Caixinha do Adhemar, uma espécie de Caixa 2 obtido por meios ainda mais escusos, com banqueiros do Jogo do Bicho e, posteriormente, com empreiteiros. Porém é importante destacar quais das atividades de Adhemar de Barros eram prática corrente na época, o que era de fato legalizado e o que era de fato proibido. Estas linhas não são autoevidentes e é justamente o olhar histórico que permite ilustrá-las.
Por exemplo, nas eleições de 1945 e 1947 (sem contar eleições em âmbito municipal para novas cidades em 1949) práticas como o alistamento “ex-officio” de eleitores eram perfeitamente legais. Este método, que mais tarde viria a ser compreendido pelos cientistas políticos como “uma fraude legalizada”, nas palavras de Maria do Carmo Campello de Souza, não só era legal como amplamente praticado. É daí que vem a ideia de “fazer eleitores” ou, como sugere Fernando Limongi, um tipo de competição política democrática que visava mais a mobilização (trazer o eleitor para votar) do que propriamente a persuasão (convencer o eleitor de que ele deve votar num partido ou em outro). Na prática, seria muito difícil acreditar que um eleitor “feito” por um partido teria condições de votar em outra agremiação.
Outro ponto interessante: não havia, na época de Adhemar de Barros, uma lei rigorosa sobre licitações para compras públicas e prestação de serviço ao Estado. Esta seria melhor delineada apenas nos anos 1960 e só teria a robustez atual na redemocratização. Logo, se hoje há práticas de malversação dos entes públicos em relação a esse tema, é de se esperar que isso também ocorresse no passado. Mas como enquadrar essas práticas como crime? A lei eleitoral, tanto quanto a burocracia e a administração pública, aperfeiçoaram as regras do jogo ao longo das últimas décadas. Entender este movimento é essencial tanto para não termos uma visão equivocada do passado quanto para pensar o presente.
2. Entre as eleições de 1947 e as de 2026, a política aprendeu a falar com muito mais gente ao mesmo tempo, e a máquina passou a distinguir o perfil de cada um. Do eleitorado que você reconstruiu na dissertação para o que você pesquisa hoje, o que de fato mudou na forma de conquistar o voto, e o que não mudou em nada?
É uma boa pergunta e acredito que cada pesquisador daria foco a uma mudança ou permanência diferente, então vou focar justamente no que aprendi com estes casos que estudei, a começar com a mudança. Acredito que o principal ponto seria justamente este: a quantidade. É inimaginável pensar a quantidade de eleitores que participam atualmente dos processos eleitorais (responder uma pesquisa, participar de uma campanha, se filiar a um partido, ser candidato ou simplesmente comparecer às urnas e votar) nas décadas passadas. E isso ocorre por uma série de razões, algumas legais e outras políticas.
A definição de quem pode ou não votar no Brasil é um dos temas mais importantes e mais caros aos pesquisadores que olham para as experiências do passado. Por exemplo, ao longo de quase toda a história da República brasileira, o voto foi proibido aos analfabetos. Se levarmos em consideração o analfabetismo do Brasil nas primeiras décadas do século XX, estamos falando de cerca de 75% da população do país. Ou seja, de saída, três quartos da população já estava fora do sistema representativo. Este cenário só mudaria na década de 1980 quando o analfabetismo, ainda que permanecesse elevado na minha opinião, já estava restrito a cerca de 25% da população. Outra regra com impacto sobre o número de participantes é a diferença entre o eleitorado masculino e o eleitorado feminino, como destaca a pesquisadora Juliana Oliveira, minha colega de tema. Na década de 1940, com o fim da era Vargas e o início da democracia no Brasil, havia uma diferenciação entre o eleitorado masculino e feminino no país: para mulheres que não tinham ocupação formal (carteira assinada) o voto era facultativo. Num cenário onde boa parte das mulheres brasileiras eram donas de casa, o resultado foi uma enorme disparidade de gênero: tínhamos quase uma mulher a cada dois homens eleitores. O período todo anterior ao Golpe de 1964 foi assim e o eleitorado feminino só se igualaria ao masculino nos anos de 1970.
Tudo isso tem impacto na quantidade de gente participando. O resultado é que na primeira metade do século XX no Brasil até os anos 1960, menos de 20% da população de fato participava. Porém, é necessário dizer que não são apenas as regras eleitorais que definem o universo de eleitores. A política também faz isso. Entre a última eleição da Primeira República (1930) e a primeira pós-era Vargas (1945), há um aumento quase exponencial no número de eleitores brasileiros: vamos de 5,7% da população adulta para 16%. Pode parecer pouco com relação aos números atuais, mas o que poderia explicar um aumento tão expressivo? A hipótese mais desenvolvida sugere que foi a própria competição política: quanto mais acirrada está uma disputa, mais gente participa – ou, no caso de 1945, é levada a participar pelos partidos. Uma eleição onde há pouca competição, onde praticamente podemos dizer de antemão quem irá vencer, costuma ter pouca participação eleitoral: ou os eleitores nem vão votar, ou os partidos não se sentem na necessidade de mobilizar mais gente. Fazer eleições é algo caro, envolve o uso de recursos. Se o resultado já está dado, para quê gastar?
Nisso, entramos numa permanência dos processos eleitorais do passado e do presente: eleições continuam sendo caras. Continuam dependendo de vultosos investimentos, sejam privados ou públicos. O que de fato mudou foi com o que se gasta. No passado, os partidos precisavam imprimir suas próprias cédulas eleitorais. A chamada cédula oficial só passou a existir no Brasil em 1955 e com adoção bastante limitada. O que existia antes era a chamada cédula partidária, impressa e entregue aos eleitores pelos membros do partido. Isso envolvia uma logística que ainda estamos tentando entender, de acordo com os documentos da época. Agora, o gasto está direcionado para outro lado: a propaganda eleitoral.
Políticos como Adhemar de Barros foram pioneiros no uso de marketing eleitoral (se estivesse vivo, tenho certeza de que estaria pensando em como utilizar IA nas suas campanhas!) e isso mudou o cenário definitivamente. A luta agora está em convencer o eleitor a votar em alguém e não apenas trazê-lo à urna. Isso já havia sido captado pelos políticos de meados da década de 1960 e foi, em grande parte, interrompido pelo período autoritário instaurado com o Golpe. A redemocratização põe o tema de volta à mesa e os políticos dos últimos 30 anos se utilizaram fartamente dos meios de comunicação para chegar a seus eleitores. Acredito que o uso de IA para peças de marketing eleitoral é o próximo passo.
Com o eleitorado continental que temos atualmente, cada vez mais acostumado ao uso de redes sociais, que não assiste a um debate por ser muito longo, mas que consome avidamente os “cortes” do debate; que já está também se acostumando a uma estética de conteúdo produzida pelas IAs, é mais do que esperado que elas virem parte da rotina das campanhas. O ponto, neste caso, é o mesmo da Caixinha do Adhemar: a regulamentação precisa acompanhar o uso da tecnologia, sob risco de simplesmente não legislar sobre algo que, com o tempo, consideraremos crime.
Eleições continuam sendo caras. Continuam dependendo de vultosos investimentos, sejam privados ou públicos. O que de fato mudou foi com o que se gasta.
3. Na sua dissertação de Mestrado, “A máquina adhemarista” (USP, 2023), você reconstrói como Adhemar de Barros e o PSP montaram, entre 1947 e 1950, uma máquina de fabricar eleitor: favor por voto, cabo eleitoral por cabo eleitoral, corpo a corpo. É quase o oposto da IA, que faz no atacado o que Adhemar fazia a varejo. Estudar por dentro a máquina artesanal coloca em melhor perspectiva os mecanismos automatizados de hoje?
Com certeza! Acredito que entender como funcionavam as “máquinas” do passado certamente ajuda a ilustrar como vão funcionar as “máquinas” do futuro. Isso, pelo menos, sob dois pontos de vista, um mais operacional e outro mais crítico.
O operacional diz respeito a precisar melhor o que a “máquina” pode fazer numa eleição. Apesar dos termos estarem aqui sendo utilizados em conjunto, é necessário explicar o que se entende por máquina em relação aos políticos, para não incorrermos no risco de achar que Adhemar de Barros tinha um computador em casa para alinhar suas maquinações! A ideia de máquina política é bastante comum nos estudos realizados nos Estados Unidos e foi, na verdade, bem pouco utilizada no Brasil. O estudo pioneiro a utilizar este conceito foi o realizado pela cientista política Eli Diniz a respeito de outra máquina que também começou no PSP, a de Chagas Freitas no Rio de Janeiro. Nos EUA, este termo é absolutamente comum para descrever políticas municipais, especialmente de grandes cidades, e quase tão corriqueiro (e criticado) quanto termos como “populismo”.
O que é uma máquina política? De acordo com a literatura, trata-se de uma organização que pode ou não ser ligada a um partido, e que trabalha politicamente para ganhar uma eleição. O termo também é correntemente utilizado para se referir, por exemplo, a um incumbente que se utiliza das prerrogativas da administração pública para ganhar votos – “O prefeito tem a máquina a seu favor”. No caso de Adhemar de Barros, portanto, estamos falando da rede de cabos eleitorais, funcionários, políticos e intermediadores (nos textos em inglês, chamados de “brokers”) que fazem a eleição – e eventualmente os eleitores – daquele candidato.
Desse ponto de vista operacional, a comparação com as máquinas atuais – entendidas aqui como a tecnologia, os modelos de inteligência artificial etc. – perde um pouco de sentido. Se a máquina do passado “fabrica eleitores”, a máquina do presente não tem essa prerrogativa. Na verdade, seria um cenário absolutamente apocalíptico, de ficção científica, se a máquina produzisse de fato um eleitor. Daí a necessidade de haver o cuidado com a urna eletrônica, por exemplo, não estar ligada à internet. Ou do cuidado que a Justiça Eleitoral tem com o registro dos eleitores – algo que, aliás, está na base da competição política democrática. Isso não quer dizer que máquinas não possam estar no processo. Há um longo debate, por exemplo, sobre a utilização de sistemas automatizados de disparo de mensagens para eleitores. O chamado Disparo em Massa é proibido pelo TSE, mas uma proposta recentemente aprovada na Câmara dos Deputados e agora no Senado abre brechas para este tipo de serviço, no qual um “robô” dispara mensagens para um enorme contingente de eleitores. Se já na década de 1960 a ideia de “fazer eleitores” estava caindo em desuso frente a práticas mais voltadas a propaganda política, ao marketing, o movimento atual também vai nesse sentido: as Máquinas Digitais substituem as Máquinas Políticas na realização da propaganda. Esperemos que nunca retornem a práticas de “fazer eleitores”.
Por outro lado, a comparação é interessante do ponto de vista que estou chamando de crítico. A ideia de utilizar o conceito de máquina política para pensar a experiência de Adhemar de Barros veio do fato de que boa parte dos estudos clássicos sobre este político focam no seu caráter populista ou, em outras palavras, uma ligação pessoal sua com o eleitor. A ênfase no “pessoal” viria do fato de que ela não seria mediada por um partido: é o político e o eleitor, nós contra eles. Isso acaba por invisibilizar toda a estrutura de cabos eleitorais – que iam de políticos até lideranças de bairro – que orbitavam ao redor do político. Daí a ideia de pensar em termos de máquina: Adhemar tinha uma máquina política que trabalhava por ele, com nomes e CPFs. Quando comparamos com as máquinas atuais, digitais, o exercício pode e deve ser o mesmo: há gente por trás disso. Uma ferramenta de IA não existe no ar: ela é fruto do trabalho de alguém, do interesse de alguém, atinge e mobiliza outras pessoas. Perder de vista o humano quando se fala de máquina é um erro que pode custar caro no futuro.
4. Você diz que a fake news “sempre existiu” e que o problema de hoje “é de escala, mais do que de conteúdo”, porque “ficou mais fácil disseminar”. Mas há um ponto em que a escala deixa de ser quantidade e vira outra coisa: um deepfake perfeito, disparado para milhões de pessoas certas na hora certa, talvez não seja o boato de sempre, só mais rápido. Na prática, como saber quando a mudança de escala já virou uma mudança de natureza?
Essa é uma provocação interessante com a qual tendo a concordar. De fato, inicialmente, o problema parecia mais de escala do que propriamente de conteúdo. Com o avanço e o desenvolvimento da tecnologia, concordo com a leitura de que temos algo mais complexo que apenas um aumento de disseminação.
Acho que o primeiro ponto de discussão é justamente desmistificar a ideia de que uma Fake News é um fenômeno atual, advindo com as redes sociais e a maior conexão que a internet nos proporcionou. A história política brasileira está cheia de exemplos de divulgação de informações inverídicas, imprecisas ou mentiras descaradas, utilizadas para gerar algum tipo de pânico, com consequências nefastas para o processo político como um todo.
Talvez um dos casos mais famosos do passado seja a fala do Brigadeiro Eduardo Gomes sobre os “marmiteiros” nas eleições de 1945. E ele é emblemático porque ocorreu na eleição que, de acordo com boa parte dos cientistas políticos brasileiros, dá início à primeira experiência democrática do país. Houve arroubos de competição no passado, mas 1945, em tese, inaugura um momento em que a competição entre grupos políticos rivais, critério mínimo para a existência da democracia, passa a ser a regra. E mesmo neste, há um caso flagrante de Fake News. Conta-se que o candidato da UDN teria dito que não precisava dos votos de marmiteiros para vencer as eleições. Não há, até onde eu sei, registro dessa fala, mas isso não impediu que fosse amplamente divulgada pela candidatura de Eurico Gaspar Dutra e outros opositores do brigadeiro, como o radialista e empresário Hugo Borghi. A questão gerou até uma marchinha de Carnaval, assinada por Silvio e Murilo Caldas, chamada Cordão dos Marmiteiros. Outros exemplos famosos são as campanhas de difamação realizadas por religiosos e membros da Liga Eleitoral Católica (LEC) em relação a candidatos associados à esquerda e ao Partido Comunista, algo não muito diferente do que vemos atualmente.
Nisso, a questão da escala é a mais visível: a circulação desse tipo de informação exigia a presença de veículos de comunicação, fossem panfletos e periódicos impressos, fosse o rádio e a televisão. A diferença para o momento atual passa pela pulverização da capacidade e dos meios de comunicação permitidos pela internet. Não há conselhos editoriais a ser convencidos quando se coloca um vídeo numa plataforma ou numa rede social: desde que não fure um conjunto de normas genéricas de utilização da plataforma, o vídeo será divulgado e compartilhado. Mesmo a capacidade de fazer marchinhas está facilitada: não é necessário mais ser um compositor do quilate dos irmãos Caldas para produzir uma música a partir de uma suposta fala infeliz de um político, há aplicativos que fazem isso instantaneamente (porém, claro, sem a mesma qualidade).
O desenvolvimento tecnológico, de fato, traz uma barreira além da escala, se pensarmos em questões como um Deepfake. Já seria possível colocar o Brigadeiro Eduardo Gomes efetivamente falando sobre os marmiteiros, mesmo que ele nunca tenha de fato falado, e acredito que estamos ainda descobrindo qual é a consequência disso. Porém, ao mesmo tempo que tecnologias como esta podem criar situações perigosas, há também uma dimensão de aprendizagem do eleitor/cidadão com relação ao uso das ferramentas, afinal Deepfakes não existem apenas no mundo da política. É possível pensar um cenário no qual a população se torne acostumada a este tipo de conteúdo e passe a questionar o que recebe: “será que isso não foi feito por IA?”. O problema, na minha opinião – e este é o centro da minha leitura sobre Fake News, por exemplo – é menos o uso da tecnologia em si e sim como ela está inserida na vida da população. Um cenário preocupante seria a população utilizar dois pesos e duas medidas no futuro: de um lado, compartilhar um deepfake de um candidato rival como se fosse verdade ao mesmo tempo que, ao ver um deepfake do candidato de sua preferência, dizer que “foi feito com IA”. Nesse cenário, o eleitor sabe que a IA pode ser usada para falsear uma fala, um vídeo, mas já pensa esse problema sob a ótica da política altamente polarizada que temos atualmente.
Um cenário preocupante seria a população utilizar dois pesos e duas medidas no futuro: de um lado, compartilhar um deepfake de um candidato rival como se fosse verdade ao mesmo tempo que, ao ver um deepfake do candidato de sua preferência, dizer que “foi feito com IA”.
5. A Resolução 23.755, que o TSE publicou em março de 2026, obriga a informar quando um conteúdo de campanha foi feito por IA e proíbe o deepfake de candidato, mas se volta a casos “de varejo”, como você observa, sem uma lei geral por trás. Pensando na eleição deste ano, o que é mais difícil de enfrentar, o conteúdo que se identifica como sendo de IA e engana assim mesmo, ou o que nunca se identifica porque quem o produz não tem intenção de jogar limpo?
A questão do Deepfake permanece, na verdade, um caso em aberto. Por mais que a resolução tenha de fato bloqueado a prática, ainda não há entendimento consolidado no TSE sobre o quanto essa proibição será de fato ampla. Por exemplo, há a leitura do ministro e presidente da Corte, Kássio Nunes Marques, de que o problema do Deepfake está relacionado ao que ele pode causar de ruim à imagem de alguém, então não haveria vedação a um tipo de “deepfake do bem”, como o candidato utilizar a prática dentro de um contexto autorizado, próprio. A maior parte da Corte, no entanto, já sinalizou ter o entendimento de que qualquer tipo de manipulação no sentido de provocar um Deepfake deveria ser proibida, seja realizada pelo próprio candidato – “vítima” da sua própria campanha, digamos assim –, seja realizado por outrem.
O problema de deixar algo tão sensível sem uma regulamentação abrangente é que podemos adentrar um terreno cada vez mais pantanoso, cada vez mais complexo, digno de ficção científica mesmo. Podemos estar às vésperas de um mundo no qual a imagem de alguém é perfeitamente manipulável e isso fazer parte de nosso cotidiano. Já é comum, por exemplo, a utilização de fotos de pessoas falecidas (famosas ou não) para produzir vídeos motivacionais, propagar ideias etc. É claro que isso, uma hora ou outra, transbordará para a política – e daí o que veremos? Alguém colocará Getúlio Vargas para indicar em quem votaria na campanha de 2026? O caso de Jair Bolsonaro, ainda vivo, porém impedido por lei de fazer campanha política, participar por meio de um Deepfake da campanha de seu filho, Flávio, é o primeiro passo para algo que ainda tentamos entender.
O debate da informação ostensiva de que é um “conteúdo feito por IA” já é uma realidade em diversos países e tem começado a ganhar corpo no Brasil. Trata-se da prática de KYA, um acrônimo em inglês para “Conheça o seu Aplicativo”, que passa pela exigência de informar ao público de que se trata de um conteúdo produzido por IA. É um primeiro passo importante e acredito que se trata de um ponto que terá cada vez mais destaque no debate público sobre o tema. Não por acaso, recentemente, empresas responsáveis por modelos de LLM famosos e amplamente utilizados, como a Anthropic em relação ao Claude, já informaram que passarão a colocar uma marca d’água em conteúdos gerados para informar, com mais precisão, o que de fato foi produzido pela ferramenta.
Então, acredito que a discussão já transbordou para algo mais complexo do que simplesmente enganar o eleitor sobre uma informação. Este foi um ponto central nos dois últimos ciclos eleitorais, quando entramos em um contato mais amplo – e eu diria, infelizmente, familiar – com a ideia de Fake News. De lá para cá, é evidente que o eleitor brasileiro já passou a considerar esses temas dentro do seu léxico político. E não nos enganemos em relação a isso: o eleitor entende o que faz. Não existe algo como um voto desinformado: pode ser um voto com pouca informação sobre temas específicos, construído de forma desleixada (quem dentro de uma escala 6x1 vai ter tempo para analisar pormenorizadamente cada um dos planos econômicos dos candidatos?), mas nunca é um voto de alguém que “não sabe votar”. A chegada da IA nesse contexto será somada a uma série de coisas já feitas por esse eleitor em sua vida e aí que mora o problema. Pelo sim e pelo não, acredito que o TSE acerta em ser mais cauteloso e restritivo com o uso da ferramenta, mesmo que seja um deepfake feito pelo próprio candidato; mas também entendo que, hora ou outra, práticas assim serão incluídas na ordem do dia. E devem estar dentro de uma regulamentação mais ampla da IA no Brasil, afinal não são só políticos que têm preocupação com deepfakes: basta ver a quantidade de famosos (especialmente mulheres) que já tiveram fotos e vídeos manipulados.
Não existe algo como um voto desinformado.
6. O Marco Legal da IA foi aprovado no Senado em 2024 e, na Câmara, o relatório virou uma promessa que escorrega de novembro para dezembro, de fevereiro para maio, de maio para junho… e ainda não veio. Enquanto isso, cada órgão tapa o buraco com portaria e resolução. Você acompanha o Congresso de perto: o que de fato impede o Brasil de aprovar uma lei geral de IA: a falta de acordo técnico, cálculo político, ou o interesse de que o vácuo continue existindo?
Este é um dos principais gargalos atuais do Brasil no que diz respeito à regulamentação. O Marco Legal da IA, o PL 2338/2023 foi aprovado no Senado em 2024, sob a relatoria do então presidente da Casa, sen. Rodrigo Pacheco. Porém acabou travando na Câmara e está há meses aguardando a apresentação do relatório por parte do dep. Aguinaldo Ribeiro. O deputado anunciou uma série de vezes que o relatório seria apresentado, porém, em todas as ocasiões até agora, pediu um novo adiamento para a continuidade das discussões internas sobre o texto.
Para se ter uma ideia do quanto isso representa um problema inclusive do ponto de vista dos negócios, de quem está interessado em IA como investidor, o programa que previa um regime especial para Data Centers no Brasil, o Redata, proposto pelo governo na forma de uma Medida Provisória, deveria ser analisado e incorporado ao PL 2338/2023 para serem discutidos em conjunto. Com a demora da apresentação do relatório, o governo pediu, no estourar do relógio da validade da Medida Provisória do Redata, que este voltasse a tramitar em separado (na forma de um projeto de lei apresentado pelo líder do governo na Câmara, dep. José Guimarães, o que deixa clara a centralidade da política para o governo). Aprovado na Câmara, o projeto não foi apreciado a tempo pelo Senado – numa decisão do presidente da Casa, sen. Davi Alcolumbre, que deixou muitos integrantes do setor bastante preocupados – e o programa simplesmente caducou.
E veja, não estamos falando aqui de um Congresso refratário ao tema. Ainda que Inteligência Artificial seja um consenso em relação aos parlamentares, ao que tudo indica, e mesmo contando com o apoio do setor econômico mais diretamente interessado na aprovação das políticas citadas, o tema tem tido muita dificuldade para avançar. Um dos principais problemas, na minha opinião, é de fato o cálculo político. Temas amplos e sensíveis assim costumam atrair visibilidade, o que pode torná-los moeda de troca para negociações políticas, ou podem também atrair os ânimos de deputados mais midiáticos e menos preocupados com o desenho da política em si. Porém, não acredito que ele seja o principal problema a travar as discussões sobre este projeto. Na minha leitura, o problema está no quão amplo um Marco Legal precisa ser.
O Brasil optou (corretamente, na minha leitura) por uma lei mais abrangente, que incentivasse o desenvolvimento da tecnologia ao mesmo tempo que impusesse certos limites sociais e legais (temas como proteção de direitos autorais, por exemplo, são questões que estão no centro do debate sobre IA no Congresso, bem como viés algorítmico, o KYA que já citei etc.). Não é a abordagem pela qual outros países da região estão optando. Na Argentina, o presidente Javier Milei publicou um artigo na The Economist informando que a regulamentação do tema no seu governo será mínima, quase inexistente. Criar uma lei mais abrangente impõe a necessidade de regulamentar situações e setores específicos que podem se sentir prejudicados. Ainda que haja consenso em relação a aprovação de “alguma lei”, o conteúdo desta lei no que diz respeito a benefícios e proibições não é consensual. É possível imaginar um futuro – certamente pós-eleições, quando os deputados voltarem ao trabalho regular – no qual este projeto seja reduzido a um consenso bem pequeno e deixe todo o restante para projetos de regulamentação de lei no futuro, fatiando a discussão.
O grande problema é que, até lá, a atividade fica como num vácuo, reduzida a iniciativas como portarias e resoluções que atuam num nível inferior ao de uma lei aprovada no Congresso. E mais, de forma descentralizada, capitaneadas por agências do governo, ou pelo próprio TSE, no que diz respeito às eleições. Não defendo que estes órgãos não regulem seus temas específicos, especialmente diante da ausência de uma legislação mais geral, mas a falta de coordenação é um perigo evidente neste caso. Se até o setor econômico está preocupado com esta aprovação, que dirá a sociedade que, como venho dizendo, está exposta a esta tecnologia.
7. Antes das pesquisas de opinião, você deu aula de política, ao ar livre, para operários da construção civil. Hoje você estuda, com método e tecnologia, o que pessoas como aquelas pensam e como decidem seu voto. Quando imagina aquele operário no canteiro de obra recebendo agora, no WhatsApp, um vídeo de campanha fabricado por IA, você compreende melhor sobre desinformação que dados sozinhos não podem explicar?
Com certeza! Esta experiência nasceu de uma iniciativa do Movimento Voto Consciente, que leva aulas de política para canteiros de obra em São Paulo, no sentido de oferecer informações sobre o processo político brasileiro para trabalhadores que nem sempre têm oportunidade e condições de se informar sobre o tema. Juntamente a este projeto, também participei de uma iniciativa semelhante, junto à Fundação Konrad Adenauer, para levar o mesmo conteúdo (formação política) para escolas da Região Metropolitana de São Paulo.
É até difícil colocar em palavras o quanto estas experiências foram importantes na minha formação como professor e pesquisador em política. Olhar apenas para dados num papel ou numa tela de computador pode informar muito sobre como a política funciona, tanto em relação a questões eleitorais como em outras vertentes da área como estudos sobre o legislativo, políticas públicas etc. Porém observar as pessoas mais de perto, como elas entendem e refletem sobre os processos políticos dos quais fazem parte, fornece outra visão que amplia enormemente nossa compreensão sobre os fenômenos. Nessas aulas ouvimos de tudo: pessoas convictas sobre seu apoio a políticos específicos, pessoas que nunca votaram (e nem pretendem votar, apesar da multa imposta pelo TSE), pessoas com preocupações reais querendo entender como funciona a aposentadoria do INSS, como funciona o postinho, quem é o responsável pelos buracos da sua rua. Pessoas que inclusive já atuaram em processos políticos, trabalhando como cabos eleitorais, entregando santinhos em semáforos, sacudindo bandeira nas ruas.
O primeiro ponto que quero destacar é reforçar o que disse anteriormente: estas pessoas sabem o que estão fazendo. É uma visão míope e em grande parte elitista da nossa parte afirmar que alguém no Brasil não sabe votar, ou que o povo brasileiro, em conjunto, não sabe o que está fazendo. Aqui, lembro das análises produzidas pelo sociólogo Jessé Souza: existe um sentimento de viralatismo dos analistas brasileiros em relação ao país, como se fôssemos sempre piores, sempre incapazes de corresponder a um ideal democrático que, como afirmou Sérgio Buarque de Holanda, seria aqui um “mal-entendido”. Todo pesquisador que tem esse encontro com as pessoas percebe isso. Nisso, há trabalhos seminais no Brasil como os realizados no Rio de Janeiro por Karina Kuschnir; em São Paulo por Telma Hoyler e Eduardo Marques; na Argentina, por Javier Auyero. Por trás de termos genéricos como clientelismo, esconde-se uma infinidade de práticas e compreensões apuradas sobre política que nem sempre entendemos. Estas pessoas estão nas ruas, nas escolas, nos canteiros de obra, nas fábricas, formando seu ideário, sua compreensão sobre o país e formando opinião para votar.
Costumava concluir as aulas que dava nessas experiências quase sempre do mesmo jeito: com o celular na mão, mostrando o quanto essa ferramenta é, hoje, a principal forma de obtenção de informação política nesse país. Na maior parte dos casos, toda a audiência da aula também tinha um celular. E aí em conjunto abríamos o site da Câmara para mostrar que é possível ler ali, ao vivo, exatamente o mesmo projeto que está sendo discutido pelos deputados naquele dia. É claro que falar assim, desse jeito, parece um bocado romântico: dificilmente as pessoas têm tempo de buscar esse tipo de informação, ainda que tenham interesse (e ainda que esta informação seja, em grande parte opaca: as reuniões do Colégio de Líderes, onde se discute a pauta legislativa, não são abertas). Porém o reconhecimento deste fato é o que importa: temos agora uma ferramenta de comunicação onipresente conosco, e com pouquíssimo filtro. Temos acompanhado o impacto disso nos últimos anos, um impacto que fora mortal durante a pandemia de COVID-19, com a disseminação de desinformações que custaram (e custam) vidas.
Porém, no que diz respeito à política, especialmente deste ponto de vista histórico que adoto, cabe perguntar o quanto a tecnologia de fato mudou a prática das pessoas ou se simplesmente abriu novos canais para algo que já acontecia. Um bom exemplo é o livro O ovo da serpente, da jornalista Consuelo Dieguez. Há um capítulo sobre os famigerados grupos de WhatsApp do bolsonarismo, reputados como decisivos para a eleição de Jair Bolsonaro em 2018. O fato que chama atenção na história que a jornalista conta é que grupos desse tipo existiam anos antes: por volta de 2012, com um aumento significativo em 2013, durante as manifestações. Agenciando e organizando pessoas que, no futuro, comporiam as fileiras do bolsonarismo. Outras pesquisas já têm indicado o quanto a familiaridade com quem compartilha uma Fake News é decisiva em sua crença: recebi no grupo do Zap da minha família, dos meus amigos etc. Este aspecto social da política é o ponto que mais fica evidente quando reflito sobre os participantes dos meus cursos de formação política em obras e escolas.
Estas pessoas sabem o que estão fazendo.
8. Nos debates recentes, o que se viu foram candidatos falando a língua da bolha (“resiliência hídrica” em vez de “falta d’água”), incompreensível para o eleitor da periferia que só queria saber do celular roubado e da água que não chega em casa. Enquanto o debate que joga limpo não fala a língua de ninguém, o vídeo fabricado por IA que cai no WhatsApp desse mesmo eleitor fala exatamente a língua dele. Ao defender que a desinformação é um problema de escala e não de conteúdo, onde fica a linha entre conhecer o eleitor para enfim falar com ele e conhecê-lo para enganá-lo? Se a IA sabe falar com o eleitor da periferia como nenhuma campanha soube, é preciso perguntar a serviço de quem ela trabalha?
É exatamente este o ponto central, na minha opinião. Por que uma Fake News atinge tão fortemente uma pessoa? De onde vem a aceitação de uma informação que, em outro contexto, seria recusada? As pessoas que estão consumindo estas informações são tocadas por elas de alguma forma e, com toda a certeza, o conteúdo gerado por IA aperfeiçoou essa prática de uma forma que, repito, ainda tentamos entender. Tem um poema do Décio Pignatari que gosto bastante e que faz sentido para pensar sobre Inteligência Artificial, chamado “Interessere”. Nele o Eu-lírico fica repetindo, quase infinitamente: “Na vida interessa o que não é vida / na morte interessa o que não é morte / na arte interessa o que não é arte / na ciência interessa o que não é ciência”, e por aí vai. Posso afirmar com certeza que na IA, o que me interessa não é a IA, e sim todas as relações sociais que a cercam.
Quando transpomos este tema para a política, mais do que o uso da tecnologia, me interessa a forma como as pessoas vão se relacionar, e se organizar ao redor dela. Não é coincidência que um fenômeno como o bolsonarismo tenha crescido num momento no qual a política brasileira passava pela chamada crise de representatividade. Ainda que esta tese tenha críticas importantes a serem levadas em consideração, é um fato que pesquisas de opinião (como as do Latinobarômetro) indicavam uma apatia da população em relação ao assunto, uma profunda falta de identificação. Bolsonaro soube capitalizar esse sentimento. E, ainda assim, numa das reflexões mais percucientes sobre o fenômeno do bolsonarismo, escrita por Miguel Lago, o autor afirma: não conseguimos ouvir Bolsonaro; no sentido de que o que ele fala soa incompreensível para muitos estudiosos. Mas muitas pessoas ouviram e continuam ouvindo.
Este ponto também não é diferente do que acontecia com os políticos que estudo no passado. Se atualmente associam Bolsonaro ao populismo de direita, a origem do populismo (ou do que se chama de populismo) pode ser traçada até políticos como Adhemar de Barros, como já falamos. E há aí um ponto em comum: uma tentativa de elaborar um discurso que fosse acessível a uma parte do eleitorado, aquela disposta a ouvir e concordar com que seria enunciado. E esse discurso se adapta à forma de falar do eleitor, se adapta à forma de se relacionar com a informação, se adapta a suas preocupações, e principalmente, a seus medos. A Inteligência Artificial serve hoje, e servirá no futuro, para tornar essa mensagem cada vez mais “exata”, no sentido de se endereçar, mirar (target) em públicos e opiniões específicas.
Entender como essas ferramentas funcionam é fundamental para a continuidade da democracia. Para isso, costumo defender dois pontos: o primeiro passo é a regulamentação ampla destas práticas, para começo de conversa. Mas, mais importante que isso, é a compreensão do que venho destacando como o aspecto social dos processos políticos. Muito da política é construído a partir do relacionamento com as pessoas e com o mundo – e menos a partir de uma reflexão íntima, econômica, dos indivíduos, como boa parte da política institucionalista postula. Infelizmente, há leituras que relegam estes aspectos ou a um “passado político”, pré-moderno, ou a uma falta de desenvolvimento das instituições. Perde-se de vista que estas relações formam e informam, criando os grupos de Zap que, posteriormente, vão compartilhar Fake News. Sem essa compreensão permaneceremos míopes e sujeitados a quem utiliza melhor uma tecnologia que, no cenário atual, carece de escrutínio público.
Onde encontrar Rodney Amador: a dissertação de mestrado, A máquina adhemarista: democracia e práticas eleitorais no começo da Terceira República em São Paulo, defendida na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP em outubro de 2023, sob orientação de Fernando Limongi, está em acesso aberto no repositório de teses da universidade. O historiador que veio antes do cientista político assina A Igreja dos Pobres: teoria e práticas da Teologia da Libertação (1970–1980), pela Desconcertos Editora, sobre a relação entre discurso e prática nas Comunidades Eclesiais de Base. E as aulas de formação política de que ele fala nasceram no Movimento Voto Consciente, que leva o curso a canteiros de obra em São Paulo.