Uma pessoa, não um rótulo
Jairo Marques
repórter especial e colunista de diversidade da Folha de S.Paulo · escreve sobre inclusão desde 1999
Sobre a máquina que promete autonomia, os rótulos que ela insiste em colar e o que, na pessoa, nenhuma inteligência artificial consegue descrever.
Ela foi feita para todos, mas continua chegando só aonde dá lucro.
Jairo Marques formou-se em jornalismo pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, fez pós-graduação em jornalismo social na PUC-SP e especializou-se em políticas públicas na fundação de jornalismo criada por Gabriel García Márquez, na Colômbia. Na Folha de S.Paulo, editou o caderno Vida Pública e reuniu parte de sua produção no livro Crônica para um Mundo mais Diverso (2022). Boa parte do que a gente pensa aqui na Toca sobre inclusão e tecnologia começou lendo textos como os dele, que provam que acessibilidade não é favor, e sim projeto.
Nascido em Três Lagoas (MS), ele escreve sobre inclusão de dentro da própria experiência: provoca para fazer pensar, não para ferir, e desconfia de qualquer palavra que tente resumir uma pessoa a uma condição. Falamos sobre o corpo como território de tecnologia, os limites da inteligência artificial diante da deficiência e o que a inclusão ainda cobra de quem projeta o mundo.
As respostas vieram por áudio, uma pergunta de cada vez, gravadas na véspera de uma viagem. “Eu acho que o áudio é melhor, porque carrega um pouco da emoção, da intenção”, avisou ele logo no primeiro. Ficam abaixo como ele as disse, e sob cada uma está o áudio original, com a transcrição automática antes da nossa edição.
1. A poliomielite chegou aos nove meses, no surto de 1975, e desde então o corpo se move sobre rodas. Ainda assim, há uma insistência firme na ideia de que a imobilidade “não é minha identidade, não é meu DNA”. Muito antes de virar tema da sua coluna, distinguir o corpo da pessoa foi trabalho de uma vida inteira. De onde vem essa convicção: nasceu como descoberta, como imposição do mundo, ou como defesa?
Bom, eu acho que o áudio é melhor, porque ele carrega um pouco da emoção, da intenção. Enfim, depois você pode transcrever numa IA aí, para facilitar a tua vida.
A primeira pergunta eu acho extremamente provocativa. Me mobiliza bastante, e a resposta é uma junção das três coisas. Ela, comigo, é uma imposição do mundo e também é uma defesa. E é difícil dizer que é uma defesa — talvez seja um ponto aí de fragilidade. Mas é uma defesa a partir do momento em que você convive com um corpo que guarda diferenças, um corpo que não é tão funcional quanto os outros que você observa, dentro do que é tido como normalidade. É difícil, porque é um corpo que às vezes dói, um corpo que não responde da forma que você gostaria, um corpo que talvez não responda a todos os desejos que você tenha. Então, a partir dessa premissa, dessa perspectiva, é uma defesa.
E é o mesmo caminho da imposição que o mundo te faz. Porque, se você é o tempo todo invalidado pelo mundo, você precisa mostrar que não. Você precisa mostrar o seu potencial, precisa mostrar que o teu corpo é o teu corpo — que ele não determina o que é a tua essência, não guia o teu pensamento, necessariamente. Embora haja encontro entre o corpo e o pensamento, mas isso é uma outra conversa.
E também foi algo de construção. A pessoa com deficiência saiu da toca há muito pouco tempo. Então há uma construção em torno disso, uma descoberta. À medida que esses valores foram mudando, agregando novos pensamentos na sociedade, você vai se fortalecendo, vai fortalecendo esse conceito. E eu acredito piamente que as atuais gerações já venham com o chip muito mais calibrado nesse sentido.
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Abaixo, a transcrição automática desta resposta, sem edição, como a máquina a produziu. O texto acima é essa mesma transcrição revista para leitura.
00:00Bom, eu acho que o áudio é melhor, porque eu acho que ele carrega um pouco da emoção, né? Da intenção. Enfim, depois você pode transcrever numa ia aí pra facilitar a tua vida, tá bom? É, a primeira pergunta eu acho extremamente provocativa. Me mobiliza bastante e a resposta é uma junção das três coisas, né? O áudio comigo é uma imposição do mundo e também é uma defesa.
00:34E é difícil dizer que é uma defesa, né? Talvez seja um ponto aí, um ponto de fragilidade. Mas é uma defesa a partir do momento que você conviver com o corpo, que guarda diferenças com o corpo que não é tão funcional quanto aos outros que você observa, né?
01:05Dentro do que é tido como normalidade é difícil, né? Porque é um corpo que às vezes dói, é um corpo que não responde da forma com que você gostaria, é um corpo que talvez não responda todos os desejos que você tenha, né? Então, a partir dessa premissa, dessa perspectiva é uma defesa, né?
01:36E é o mesmo caminho da imposição que o mundo te faz, né? Porque se você é um tempo todo invalidado pelo mundo, você precisa mostrar que não, né? Você precisa mostrar o seu potencial, você precisa mostrar que o teu corpo é o teu corpo, né? Que ele não determina o que é a tua essência, né? Ele não guia o teu pensamento necessariamente, necessariamente, né?
02:12Embora sim, embora já encontras entre o corpo e o pensamento, mas isso é uma outra conversa. E também foi algo de construção, né? A gente, a pessoa com deficiência saiu da toca há muito pouco tempo. Então há uma construção em torno disso, né? Há uma descoberta em torno disso, de acordo com que esses valores foram mudando ou agregando
02:44novos pensamentos na sociedade, você vai se fortalecendo, né? Você vai fortalecendo esse conceito. E eu acredito piamente que as atuais gerações já venham com o chip muito mais calibrado nesse sentido.
O teu corpo é o teu corpo: ele não determina o que é a tua essência.
2. São mais de duas décadas de observação: repórter de deficiência e inclusão na Folha desde 1999, autor do blog Assim como Você desde 2008, presença em quatro Paralimpíadas. Nesse tempo, a inclusão virou palavra de ordem, ganhou lei, campanha e vitrine corporativa. Mas o que mudou de verdade de 1999 para cá?
A mudança de 99 para cá — quase três décadas — é brutal. A gente não tinha nenhum protagonismo, não tinha discussão sobre inclusão e acessibilidade no início dos anos 2000; era muito uma questão de por conta própria. Quando eu vim para São Paulo, eu vim com a cara e com muita coragem, sem falsa modéstia, porque não havia sequer uma preocupação do tipo “puxa, como é que ele vai fazer?”. Não havia essa discussão. Era muito do tipo: olha, se você conseguir chegar aqui, tá ótimo.
Hoje não. Hoje acho que a gente conseguiu ganhar bastante como sociedade, nesse sentido de ter um olhar para o outro. A gente teve a evolução da Lei de Cotas, que é fundamental nesse processo. A gente teve a escola inclusiva, que tem um impacto muito divisor de águas: a gente não via pessoas com deficiência intelectual em lugar nenhum além dos guetos. E agora essas pessoas estão no mercado de trabalho, estão fazendo filme, estão se relacionando — elas estavam aprisionadas. Eu acredito… acredito, não: eu tenho convicção de que a gente ainda tenha mais masmorras de pessoas com deficiência, mas aos pouquinhos as pessoas já começam a ter instrumentos para sair de lá.
Então as mudanças seguramente são enormes. Falei do trabalho, da escola, dos relacionamentos, e tem também a discussão sobre capacitismo. Capacitismo não é a melhor palavra, eu acredito, para o preconceito — mas é a palavra que a gente tem. A gente começou a discutir isso, começou a dar visibilidade para esse tipo de discussão, o que é, com certeza, um marco desses anos.
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Abaixo, a transcrição automática desta resposta, sem edição, como a máquina a produziu. O texto acima é essa mesma transcrição revista para leitura.
00:00A mudança de 99 pra cá, né, 20, quase 3 décadas, é brutal, a gente não tinha nenhum protagonismo, né, a gente não tinha discussão sobre inclusão e acessibilidade no início dos anos 2000, era muito uma questão de por conta própria. Quando eu vim pra São Paulo, eu vim com a cara e com muita coragem, sem falsa modestia,
00:37porque não havia sequer uma preocupação do tipo, cuja, como é que ele vai fazer, né, não havia essa discussão. Era muito do tipo, ó, se você conseguir, beleza, se você conseguir chegar aqui, tá ótimo, né. Hoje não, né, hoje acho que a gente conseguiu ganhar bastante como sociedade nesse sentido de ter um olhar para o outro. A gente teve a evolução da lei de cotas, né,
01:09que é fundamental nesse processo. A gente teve a escola inclusiva, né, a escola inclusiva tem um impacto e tá trazendo um impacto que é, ele é muito divisor de águas. A gente não via pessoas com deficiência intelectual em um lugar, né, além dos guetos. E agora essas pessoas estão no mercado de trabalho, estão fazendo filme, estão se relacionando, então elas estavam aprisionadas, né. Eu acredito que a gente, acredito não, eu tenho convicção que a gente ainda
01:44tenha mais morros de pessoas com deficiência, mas aos pouquinhos as pessoas já começam a ter instrumentos para sair de lá, né. Então, as mudanças seguramente são enormes. Então eu falei do trabalho, falei da escola, né, dos relacionamentos e tem também a discussão sobre capacitismo. Casualitismo é a melhor palavra que eu acredito para preconceito, mas é a palavra que a gente tem.
02:17É, a gente começou a discutir isso, né. A gente começou a dar visibilidade para esse tipo de discussão, o que é, com certeza, um marco aí, desses anos, né.
3. Malacabado é o neologismo provocativo que batizou a sua própria história, algo que, nas suas palavras, quer “fazer uma graça” e ao mesmo tempo “provocar um certo incômodo”. A tecnologia do nosso tempo persegue uma perfeição anódina, lisa, sem arestas, que corrige e otimiza tudo o que foge do padrão. E, no entanto, talvez seja o inacabado, a falha, a assimetria, a cicatriz, o que há de mais humano em nós. Ao assumir-se “malacabado”, há nisso uma reivindicação da imperfeição como aquilo que nenhuma máquina saberá imitar?
Não sei se você tem uma formação de comunicação, mas a terceira pergunta tem uma sofisticação muito bonita; gostei muito da forma com que você a colocou. É tudo isso. Malacabado é uma apropriação mesmo, é uma reivindicação: antes que me ataquem, eu assumo. Deu muito certo com outros grupos sociais, e eu acredito que dá menos certo com a pessoa com deficiência, porque a sociedade vê como uma autoagressão. Diferentemente de um chiste, de uma brincadeira, de uma provocação, parte da sociedade ainda vê como “nossa, coitado, puxa, mas como assim, malacabado?”. E o começo dessa história foi absurdamente disruptivo: as pessoas ficavam muito indignadas comigo. Hoje ficam menos, mas ainda existe um desconforto.
E sim, eu acho que é uma reivindicação no sentido de estar tudo bem: está tudo bem andando na cadeira de rodas, está tudo bem ser cego, está tudo bem ser surdo, está tudo bem ter síndrome de Down. Só que é muito difícil dissociar isso de uma enorme construção de dor em torno da perspectiva da deficiência.
Aqui eu posso ser um pouco contraditório diante da primeira resposta que eu dei. Ter uma deficiência às vezes é ter um incômodo, é ter uma dor. Mas não é só ter uma dor, não é só ter um incômodo: é ter uma outra perspectiva diante da vida, um outro olhar. E, para essas dores que eventualmente estão aí, o que se busca é uma melhoria: acessibilidade, um medicamento mais poderoso, um dispositivo eletrônico — não para normalizar, mas para otimizar a condição que você tem, para que você consiga ter um pouco mais de conforto diante dessa situação. E essa é a grande contradição da defesa da deficiência, que é um tanto difícil de ser explicada e mais difícil ainda de ser compreendida — mas eu acho que ela é extremamente legítima.
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Abaixo, a transcrição automática desta resposta, sem edição, como a máquina a produziu. O texto acima é essa mesma transcrição revista para leitura.
00:00Não sei se você tem uma formação de comunicação, mas a terceira pergunta tem uma sofisticação muito bonita, gostei muito da forma com que você colocou a terceira pergunta, é tudo isso, mal acabado é uma apropriação mesmo, é uma reivindicação antes que me ataque e eu assumo, deu muito certo com outros grupos sociais e eu acredito que dá menos
00:39certo com a pessoa com deficiência, porque a sociedade vê como uma autoagressão, diferentemente de um xiste, de uma brincadeira, de uma provocação, parte da sociedade ainda ver como na nossa, coitado, puxa, mas como assim mal acabado? E o começo dessa história foi absurdamente desoptiva, as pessoas ficavam muito indignadas comigo, hoje ficam menos,
01:09mas ainda desiste um desconforto. E sim, eu acho que é uma reivindicação no sentido de a gente estar tudo bem, estar tudo bem andando na cadeira de rodas, estar tudo bem se segue, estar tudo bem se assurdo, estar tudo bem dentro do vídeo dão, só que é muito difícil de associar isso de uma enorme construção de dor em torno
01:45da perspectiva da deficiência. Aqui eu posso ser um pouco contraditório, diante da primeira resposta que eu dei. Ter uma deficiência às vezes é ter um incômodo, é ter uma dor, mas não é só ter uma dor, não é só ter um incômodo, é ter uma outra perspectiva diante da vida, é um outro olhar diante da vida. E para essas dores que eventualmente estão, o que se busca é uma melhoria para elas, acessibilidade, um medicamento mais poderoso,
02:20um dispositivo eletrônico, mas não para normalizar, mas para otimizar a condição que você tem, para que você consiga ter um pouco mais de conforto diante dessa situação que você tem. E essa é a grande contradição da defesa da deficiência, que é um tanto difícil de ser
02:53explicada e um tanto difícil, mais difícil ainda de ser compreendida, mas eu acho que ela é extremamente legítima.
Não para normalizar, mas para otimizar a condição que você tem.
4. Uma divisa resume a sua visão de mundo: “o mais-barato precisa perder espaço para o é-para-todos”. Os sistemas de inteligência artificial nascem do oposto disso, treinados na média estatística, no que sai mais barato, e a média é justamente o que apaga o corpo diferente. Na prática, como saber se uma tecnologia foi feita para todos ou apenas para a maioria que dá lucro?
A própria ferramenta de inteligência artificial admite que tem um viés que não considera as deficiências. E, mais do que isso, ela admite que não é inclusiva, que não é acessível para todos os públicos com deficiência. Então isso já é uma contradição que ela mesma assume. Acho isso interessante.
Por outro lado, a tecnologia tem oferecido a pessoas com deficiência experiências que são muito inéditas para elas. A gente tem esses óculos aí que fazem tradução para cegos, os implantes cocleares que levam algum tipo de sonoridade para os surdos, cadeiras de rodas cada vez mais tecnológicas. Mas exatamente isso que estou pontuando tem um fosso econômico. E ele guarda uma crueldade absurda: a tecnologia existe, ela é possível, mas ela é caríssima. E ela não chega a quem precisa — chega residualmente a quem precisa. É isso que está resumido: ela foi feita para todos, mas continua chegando só aonde dá lucro.
E, se você espremer a questão da pessoa com deficiência, vai perceber o quanto é perverso. Uma cadeira de rodas com uma boa tecnologia embarcada não custa menos de 50 mil reais — que é a realidade econômica de quê? De 0,1% da população brasileira com deficiência? Não sei nem se chegaria a isso.
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Abaixo, a transcrição automática desta resposta, sem edição, como a máquina a produziu. O texto acima é essa mesma transcrição revista para leitura.
00:00A tecnologia, a própria terra de inteligência artificial, admite que ela tem um viés que não considera as deficiências. E mais do que isso, ela admite que ela não é inclusiva, que ela não é acessível para todos os públicos com deficiência. Então isso já é uma contradição que ela mesmo assume. Acho isso interessante.
00:30Por outro lado, a tecnologia tem oferecido a pessoas com deficiência, experiências que são muito inéditas para elas. A gente tem esses óculos aí que fazem tradução para cegos. A gente tem os implantes coclearis que levam algum tipo de solaridade para os surdos. A gente tem cadeiras de rodas cada vez mais tecnológicas, mas exatamente isso que está apontoado tem um fosso econômico.
01:07E ele guarda uma crueldade absurda que a tecnologia existe, ela tem, ela é possível, mas ela é caríssima. E ela não chega a ninguém precisa. Ela chega residualmente a ninguém precisa. E é isso que está resumido. Ela foi feita para todos, mas ela continua chegando só para onde ela dá lucro.
01:43E se você exprimir a questão da pessoa com deficiência, você vai perceber o quanto é perverso. Uma cadeira de rodas com uma tecnologia embarcada boa, não custa menos de 50 mil reais, que é a realidade econômica do que 0.1% da população brasileira com deficiência, não sei nem se chegaria a isso.
5. Foi sua a observação de que “a própria IA admite que não foi totalmente pensada para dar conta de demandas de inclusão, de acessibilidade e de identidade de pessoas com deficiência”. Mas máquina não se responsabiliza; devolve um texto que agrada quem pergunta. Quem deveria admitir de verdade, e não admite, é a empresa que a constrói e a vende assim mesmo. Quando a IA “admite” a falha, quem fala ali: a máquina, a empresa, ou o espelho do que a gente quer ouvir?
A quinta pergunta, acho que eu me antecipei a ela, falei um pouco já sobre isso. Mas eu acho que, de novo, é uma mistura das coisas. É o espelho de quem quer ouvir: a IA vai dar uma resposta ali tentando não te desagradar. Ao mesmo tempo, quando a empresa dá esse indicativo, ela se valida — e vai continuar se validando, porque, se ela é uma inteligência, ela não pode ter falhas, no sentido de tentar atender todas as respostas. Acho que a resposta é uma mistura, de novo.
Mas eu vou te dizer que sou mais otimista que pessimista nesse caso. Por exemplo: a IA é capaz de transformar um texto em algo que a gente chama de linguagem simples, e a linguagem simples atende a um percentual enorme de pessoas, sobretudo pessoas com deficiência intelectual. Isso, por si só, é um ganho, embora esteja à mão de muita gente — não de toda, tiradas todas as questões econômicas de que a gente já conversou um pouco; mas eu acho que ainda tem algumas versões gratuitas que talvez funcionem relativamente bem. É um instrumento que pode chegar lá no professor de Quixeramobim, sabe? Que pode dar a ele um instrumento de facilitação, de inclusão em sala de aula. E é um instrumento simples: é pegar, jogar lá um texto e pedir para aquele texto ser transformado em linguagem simples. Mas isso é um exemplo, apenas. As contradições, a gente já falou um pouco.
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Abaixo, a transcrição automática desta resposta, sem edição, como a máquina a produziu. O texto acima é essa mesma transcrição revista para leitura.
00:00É a quinta pergunta, acho que eu me antecipeia ela, falei um pouco já sobre isso, mas eu acho que, de novo, é uma mistura das coisas, é o espelho de quem quer ouvir, a Iá vai dar uma resposta ali tentando não te desagradar, ao mesmo tempo que, quando a empresa dá esse indicativo, ela se valida, ela vai continuar se validando, porque, se ela é uma inteligência, ela não pode ter falhas,
00:30no sentido de tentar atender todas as respostas, né? Acho que é uma mistura, essa pergunta, a resposta é uma mistura, de novo. Mas eu vou te dizer que eu sou mais otimista que pessimista nesse caso. Por exemplo, a Iá é capaz de transformar um texto em algo que a gente chama de linguagem simples,
01:03e a linguagem simples atende a um percentual enorme de pessoas, sobretudo pessoas com deficiência intelectual. Isso, por si só, é um ganho, embora esteja à mão de muita gente tirada todas as questões econômicas ali, que a gente já conversou um pouco, mas eu acho que aí ainda tem algumas versões ali que são gratuitas e que talvez funcionem relativamente bem.
01:37É um instrumento que pode chegar lá no professor de xeramobim, sabe? Que pode dar ele um instrumento de facilitação, de inclusão em sala de aula, né? E é um instrumento simples, é, se pegar, jogar, ler um texto e pedir para aquele texto ser transformado em linguagem simples. Mas isso é um exemplo, apenas as contradições, a gente já falou um pouco, né?
6. Há um entusiasmo enorme com a ideia de “IA para acessibilidade”: leitor de tela, legenda automática, descrição de imagem, navegação adaptada. Só quem depende dessas ferramentas no dia a dia conhece a distância entre a promessa de uma tecnologia e o que ela de fato entrega. Dessas promessas todas, o que já é real e o que ainda é marketing de quem nunca precisou usá-las?
Eu gosto muito também da provocação da pergunta 6. É que, de fato, há uma diferença brutal das experiências: quem usa e quem imagina ela sendo usada. Uma coisa que te digo, por exemplo, são as IAs que fazem tradução em Libras. A IA que faz tradução em Libras não é perfeita, segundo os próprios surdos — porque a Libras depende do gestual de rosto, de expressões que a IA não é capaz de fazer. Se você pensar, por exemplo, num óculos para o cego: embora possa otimizar um percurso, ele torna potencialmente a vida do cego mais isolada ainda, porque o cego tem uma questão de isolamento social enorme.
Então, o que é real é que a gente, de fato, tem movimentos que vão otimizar, e já estão otimizando, algumas dores das pessoas com deficiência. O que é marketing nessa história é o turbinar disso tudo. É quando se vende a tecnologia como algo que vai normalizar a pessoa com deficiência, que vai colocá-la num padrão de normalidade, como se ela não tivesse algum tipo de deficiência. Isso seria um verdadeiro milagre — isso não é verdade. Porque, quando qualquer instrumento de acessibilidade é retirado da pessoa, sua condição volta a ser a nata: o surdo volta a ser surdo, o cego volta a ser plenamente cego, o cadeirante volta a ser uma pessoa com questões de mobilidade. Então ele não é de dentro para fora; é de fora para dentro. E, para mim, as mudanças mais significativas que podem ditar algo em relação à deficiência serão de dentro para fora.
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Abaixo, a transcrição automática desta resposta, sem edição, como a máquina a produziu. O texto acima é essa mesma transcrição revista para leitura.
00:00Então, eu gosto muito também da provocação da pergunta 6. É que, de fato, há uma diferença brutal das experiências. Quem usa e quem imagina ela sendo usada. Uma coisa que te digo é, por exemplo, asias que fazem tradução em libras.
00:30A ya que faz tradução em libras não é perfeita, segundo os próprios surdos. Porque a libras depende do gestual de rosto, de expressões que a ya não faz, não é capaz de fazer. Se você pensar, por exemplo, num óculos para o cego, embora otimize, pode otimizar um percurso, ele torna potencialmente a vida do cego mais isolado ainda.
01:10Porque o cego tem uma questão de isolamento social enorme. Então, o que é real é que a gente, de fato, tem movimentos que vão otimizar e já estão otimizando algumas dores das pessoas com deficiência. O que é marketing nessa história é o turbinar disso tudo.
01:43É quando se vende a tecnologia como algo que vai normalizar a pessoa com deficiência, que vai colocá-la num padrão de normalidade, que vai colocá-la no padrão como se ela não tivesse algum tipo de deficiência. Isso aqui é um verdadeiro milagre, isso não é verdade. Porque quando qualquer instrumento de acessibilidade é retirado da pessoa, sua condição volta a ser nata.
02:17O surdo volta a ser surdo, o cego volta a ser plenamente cego, o cadeirante volta a ser uma pessoa com questões de mobilidade. Então, ele não é de dentro para fora, é de fora para dentro. E para mim, as mudanças mais significativas que podem ditar algo em relação a mudanças de deficiência serão de dentro para fora.
Quando qualquer instrumento de acessibilidade é retirado da pessoa, sua condição volta a ser a nata.
7. Fora do trabalho e da militância existe o pai da Elis e alguém que já disse querer, um dia, escrever sobre “o amor na deficiência, e sexo”, temas que o noticiário insiste em silenciar. Longe da causa e do crachá, há um Jairo que não precisa provar nada a ninguém: como é esse Jairo, e o que o alegra quando não há plateia?
Desculpa ficar batendo nessa tecla, mas é muito interessante esse escrutínio que você conseguiu fazer da minha trajetória. Caramba — quando você diz assim, “longe do crachá, esse Jairo que não precisa provar nada pra ninguém”… caramba. Porque, de fato, eu acho que nos meus textos, nas minhas reportagens, eu estou sempre provando algo, sempre querendo mostrar algo. E eu acho que esse Jairo que não está nesse lugar é um Jairo muito mais calmo. É um cara muito mais easygoing, que gosta de pegar um livrinho, de dar umas risadas, de ir ao cinema, sabe, de ser tranquilo. É um cara que não necessariamente gostaria de carregar as angústias do mundo.
Mas eu te digo que também tem essa pessoa aí que é o pai da Elis — eu me tornei o pai da Elis, e eu escrevo muito sobre essa questão. E ela se torna muito umbilical pra mim também, muito umbilical. Eu sinto como se fosse… como eu posso dizer? É muito legal você estar construindo do zero uma perspectiva de olhar o mundo. Embora eu possa estar imputando nela uma responsabilidade muito grande — eu percebo isso —, eu percebo o quanto está sendo bonito ver minha filha crescendo com essa mentalidade que eu tento construir no coletivo, aqui dentro de casa.
Mas eu acho que eu sou muito alegre na paz. Sou muito alegre brincando com cachorro, muito alegre quando eu posso ficar contemplando o mar. Quando eu não tenho que estar brigando com o mundo, na tal da fadiga de acesso. Eu estou com 51 anos, estou com muita fadiga de acesso, muita fadiga de tudo ter que pensar: se aonde eu vou me cabe, se aonde eu vou dá pra parar, se aonde eu vou vão me tratar relativamente ok. Sabe, ter que usar o crachá do jornal em que eu trabalho — isso me fatiga um pouco. Não: me fatiga muito. Então eu acho que me deixa feliz quando eu não tenho essa sensação, assim, nos vários momentos… vários, não: nos momentos em que eu não tenho essa sensação.
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Abaixo, a transcrição automática desta resposta, sem edição, como a máquina a produziu. O texto acima é essa mesma transcrição revista para leitura.
00:00Eu desculpa ficar batendo nessa tecla, mas é muito interessante esse escrutínio que você conseguiu fazer da minha trajetória. Caramba, quando você diz assim, longe do crachá, esse gyro que não precisa provar nada pra ninguém, caramba. Porque de fato eu acho que nos meus textos, nos meus reportagens eu estou sempre provando algo, sempre querendo mostrar algo.
00:40E eu acho que esse gyro que não está aí nesse lugar é um gyro muito mais calmo assim. É um cara muito mais esigouem, que gosta de pegar um livrinho, de dar umas isadas, de ir ao cinema, saber se é tranquilo. É um cara que não necessariamente gostaria de carregar as angústias do mundo.
01:11Mas eu te digo que também tem essa pessoa aí que é o pai da Elis, que eu me tornei o pai da Elis, e eu escrevo muito sobre essa questão. E ela se torna muito umbilical pra mim também, muito umbilical. Eu sinto como se fosse, como eu posso dizer assim, muito legal você estar construindo do zero uma perspectiva de olhar do mundo.
01:52Embora eu possa estar inputando nela uma responsabilidade muito grande, eu percebo isso. Eu percebo quanto está sendo bonito ver minha filha crescendo com essa mentalidade que eu tento construir no coletivo, aqui dentro de casa. Mas eu acho que eu sou muito alegre na paz. Eu sou muito alegre brincando com cachorro, muito alegre quando eu posso ficar contemplando o mar.
02:41Quando eu não tenho que estar brigando com o mundo natal da fadiga de acesso. Eu estou com 51 anos, eu estou com muita fadiga de acesso, muita fadiga de ter que tudo ter que pensar se é onde eu vou, me cabe, se é onde eu vou, dá pra parar, se é onde eu vou, vou me tratar relativamente ok, se é onde eu vou.
03:12Sabe, tem que usar o crachado, o jornal que eu trabalho, isso me fatiga, me faz diga um pouco, não me faz diga muito. Então eu acho que me deixa feliz quando eu não tenho essa sensação, assim, nos vários momentos que eu não tenho essa sensação. Vários não, nos momentos em que eu não tenho essa sensação.
Eu estou com 51 anos, estou com muita fadiga de acesso.
8. A tecnologia habita o seu corpo desde bebê, muito antes de a inteligência artificial virar moda. Se um dia uma máquina descrever a sua vida melhor do que você, de forma mais rápida, mais completa e sem cansaço, ainda assim faltará alguma coisa. Onde fica a linha entre a tecnologia que potencializa o humano e a que o substitui?
Eu acho que, quando a gente partir para a inteligência artificial no sentido de que ela nos dê uma resposta pronta, sem uma provocação inicial, sem uma inquietação inicial, aí a gente está correndo um sério risco. Quando ela se antecipar àquilo que você tem que fazer, aí vai ser um negócio muito estranho. Porque eu ainda acho que a gente está no estágio de usar a inteligência artificial como um instrumento para instigar: você tem uma ideia e aí, a partir da sua ideia, você vai lapidando essa ideia; a partir dessa ideia, você vai pedindo sugestões de ampliação de um argumento. Agora, quando você tem tudo pronto, quando ela antecipa as respostas, quando ela se antecipa ao seu pensamento — puxa vida, eu acho que a linha foi cruzada.
Eu acho que a gente ainda não está nesse ponto — não sei, porque eu posso estar muito Poliana. Eu acho que ainda é uma coisa muito mais consultiva do que imperativa. Mas eu não sei se vai ser sempre assim. E aí eu acho bem perigoso mesmo.
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00:00Eu acho que quando a gente partiu para a inteligência artificial no sentido de que ela nos dê uma resposta pronta sem uma provocação inicial, sem uma inquietação inicial, aí a gente está correndo um sério risco. Quando ela se antecipar aquilo que você tem que fazer,
00:35aí vai ser um negócio muito estranho, porque eu ainda acho que a gente está no estágio de usar a inteligência artificial como um instrumento para instigar. Você tem uma ideia e aí, a partir da sua ideia, você vai lapidando essa ideia. A partir dessa ideia, você vai pedindo sugestões de ampliação de um argumento.
01:08Agora, quando você tem tudo pronto, ela antecipa as respostas, ela não se antecipa ao seu pensamento, puxa a vida. Eu acho que a linha foi cruzada. Eu acho que a gente ainda não está nesse, não sei, porque eu posso estar muito podiando. Eu acho que ainda está uma coisa muito mais consultiva do que imperativa.
01:45Mas eu não sei se vai ser sempre assim. E aí eu acho bem perigoso mesmo.
Terminado o roteiro, ainda chegou um último áudio, fora de pauta — a despedida, e uma confissão de ofício.
Bom, espero ter respondido tudo — qualquer coisa, você reforça, qualquer coisa que ficou ambígua. Obrigado por me mobilizar esses pensamentos. Amanhã eu estou indo para uma feira do livro lá em Paracatu, no sertão de Minas. Eu acho que me sinto um cronista, mas me sinto um pouco um vigarista como escritor — escritor, eu sinto que é um literário mesmo, da palavra, literal da palavra. Mas eu gosto de ocupar os espaços, sabe? Eu gosto de mostrar que tem pessoas podendo fazer tudo. É isso, um beijão, viu? Qualquer coisa, me acione.
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Abaixo, a transcrição automática desta resposta, sem edição, como a máquina a produziu. O texto acima é essa mesma transcrição revista para leitura.
00:00Bom, espero que vocês tenham respondido, tudo, qualquer coisa que você reforça, qualquer coisa que ficou ambíguo. Obrigado por me mobilizar esses pensamentos. Amanhã eu estou indo para uma feira do livro lá em Paracatu, no Certão de Minas. Eu acho que me sinto um cronista, mas eu me sinto um pouco um vigarista, como um escritor.
00:30Escritor me sinto um literário mesmo, da palavra. Literal da palavra. Mas eu gosto de ocupar os espaços, sabe? Eu gosto de mostrar que tem pessoas que devem sempre fazer tudo. É isso, um beijão, viu? Qualquer coisa eu mencione.
E, já que ele mandou reforçar o que fosse preciso, a gente reforça: o “Malacabado” é excelente escritor e jornalista, e segue fazendo grandes reportagens nos lugares mais incríveis.
Onde encontrar Jairo Marques: na sua página de colunista da Folha de S.Paulo e no blog Assim como Você, que mantém desde 2008; nas livrarias, em Malacabado — a história de um jornalista sobre rodas (Três Estrelas, 2016), a história que ele batizou com o próprio neologismo, e em Crônica para um Mundo mais Diverso (Serena, 2022); no X, ele é @assimcomovc. No dia seguinte ao destas gravações, ele embarcava para a feira do livro de Paracatu, no sertão de Minas — ocupando os espaços, como gosta.