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← todas as entrevistas O Outro Lado da Tela · julho de 2026

Se fôssemos convergentes, artistas não seríamos

Carlinhos Antunes

multi-instrumentista, regente e produtor cultural · criou a Orquestra Mundana e, com a assistente social Cleo Regina Miranda, idealizou a Orquestra Mundana Refugi

Instrumentos de dez culturas dentro do mesmo arranjo, a lentidão que um encontro exige e o que, no ofício de quem vive das mãos, continua sendo humano.


Trata-se de música de convivência e não de tolerância. Todos devem ser representados e acolhidos.

Carlos Eduardo Coltro Antunes nasceu em São Paulo, fez música na Fundação das Artes de São Caetano e formou-se em História pela PUC-SP. No final dos anos 80, junto ao CPV, escreveu seis livretos sobre música do mundo, com exemplos musicais. Ao longo da vida montou uma obra que atravessa fronteiras, desde muito antes de que atravessar fronteiras virasse um clique. Tem mais de 30 álbuns gravados no Brasil e fora do Brasil, com diversas formações. Criou em 2002 a Orquestra Mundana, fruto de um projeto intitulado São Paulo de Todos os Povos; idealizou, com a assistente social Cleo Regina Miranda, o projeto Refugi, que originou a Orquestra Mundana Refugi em 2017. Tocou no Peru, em Cuba, na França, na Inglaterra, na Escócia, na Grécia, em Burkina Faso, na Itália, na Turquia, na Croácia, totalizando 46 países. Aqui na Toca, onde quase tudo o que roda é modelo, camada e parâmetro, o catálogo dele é de outra ordem: viola, charango, ronroco, tiple, cuatro, saz, kora, n’goni, guitarrón — instrumentos que só existem porque alguém, em algum lugar, precisou daquele som exato e de nenhum outro.

Passou quatro anos entre a Espanha e o Marrocos ensinando música brasileira e atuando como instrumentista em Madri, San Sebastián e Casablanca. De volta ao Brasil, apresentou na rádio Brasil 2000 um programa de música do mundo batizado de Axis Mundi — o eixo em torno do qual tudo gira. Em 1998 levou a trinta cidades a Festa Lorca, sua homenagem ao poeta assassinado no início da Guerra Civil Espanhola; em 2009 reuniu Badi Assad, os Barbatuques e o Mawaca no Auditório Ibirapuera para a gravação do DVD Africanita. Define o próprio estilo sem cerimônia: “variado, com influência de várias partes do mundo, unindo a música popular, a música tradicional de várias culturas e a erudita”. Sentamos para falar sobre a lentidão que um encontro exige, sobre o ofício de quem vive das mãos e sobre a atipicidade que ele considera a condição de existir arte.

Antes de qualquer instrumento, há um menino de quatro anos tirando som de garrafas. Mesmo passando pelo violão erudito e pela Fundação das Artes, você seguiu sendo, sobretudo, autodidata — alguém que aprendeu viajando e perguntando, sem medo, ao próprio instrumento o que estava achando da sua performance. Hoje, uma criança de quatro anos pode pedir uma canção pronta a uma máquina e recebê-la em dez segundos. O que aquele menino buscava, que não se encontra apenas pedindo?

Ter nascido numa época em que ser curioso exigia muito trabalho, não ter instrumento por falta de recursos, em que a rua era o grande aprendizado, tem suas delícias e dores que nos fazem seres diferenciados, sobreviventes, criados na coragem e nos desafios. Podemos aqui fazer uma ponte com os movimentos dos anos 70 que geraram o hip-hop, o break dance, os grafites, os DJs, as batalhas de rima etc.

Sobre inteligência artificial você disse “engatinho nessa área”, mas emendou: “nós músicos lidamos com as tecnologias desde que nascemos”. É verdade — você atravessou o rádio, o microfone, o disco, o multipistas, o sampler, o software que conserta o que a mão errou. Em qual dessas passagens a tecnologia deixou de ser uma ferramenta na sua mão e começou a decidir alguma coisa por você?

Eu amo o trabalho em conjunto, apesar de ser uma pessoa totalmente solitária. Uma contradição. Solidário e solitário na mesma medida, eu diria.

Me cerco de especialistas em gravação, mixagem, edição de música, documentaristas, e com eles me realizo. Posso experienciar minhas loucuras. Isso também aprendi fazendo música para audiovisuais em tempo real. Via as imagens e criava um som adequado às cenas. Foram centenas deles. Fiz animação para cinema mudo, criei música para poesias, contação de histórias, para documentários que dirigi na África junto com Márcio Werneck etc.

Em 1997 você criou o movimento que em 2002 virou Orquestra Mundana. Quinze anos depois, com a assistente social Cleo Regina Miranda, criou o projeto Refugi, que transformou a Orquestra Mundana em Orquestra Mundana Refugi: vinte e um músicos, brasileiros, imigrantes e refugiados de países como Síria, Congo, Palestina, Irã, Haiti, Cuba, Venezuela, França, China e Guiné-Conacri, tocando juntos. Você descreveu o trabalho como a busca, a médio prazo, de uma linguagem musical comum nascida dessas diferenças — e em Todo Lugar É Aqui samba, xote, baladi, flamenco, tarantela e música andina, dentre outros, dividem dez faixas. Quando essa linguagem comum enfim aparece dentro de um arranjo, ela é sua, é da orquestra, ou não é de ninguém?

É de todos e todas. Nada se cria do zero, tudo se incorpora, se reifica, se reaprende, se reinventa. Seria muita pretensão da nossa parte — aliás, o mundo é cheio de pretensiosos — crer que, com centenas de milhares de anos de história, somos inéditos, pioneiros etc. Quanto mais estudo e viajo, mais reconheço o quão ignorante sou. O quanto desconheço, o quanto necessito aprender e apreender das milhões de culturas que formam essa imensa bola chamada Terra. Tem até quem ache que é plana. Vejam só.

Voltando para a Orquestra, creio que o grande mérito que tenho é saber juntar as diversas expertises: os que aprendem música na aldeia, as que aprendem a cantar ouvindo os pais, os que vão cantar nos cultos, os que vão estudar música nas universidades ou conservatórios, os autodidatas etc. A música que produzimos é fruto de caos e criação, debates, escuta, trabalho solitário de arranjo, embates de egos, histórias de refúgio, imigração, deslocamentos, às vezes conflitos políticos e religiosos. Em suma, trata-se de música de convivência e não de tolerância. Todos devem ser representados e acolhidos. Posso afirmar, sem medo, que a Orquestra Mundana Refugi é um grande laboratório de vida de verdade. De relações sociais que não aconteceriam no dia a dia, principalmente num país tão excludente, racista, dividido por classes bem definidas, mas que é capaz, por sua vez, de ser generoso, emotivo, cooperativo. O Brasil e o brasileiro precisam de fato ser estudados. O que fazemos é praticar, colocar tudo isso frente a frente e apresentar os resultados no palco.

Carlinhos Antunes sentado no palco, tocando violão, cercado por violas, violões, uma kora e instrumentos de percussão apoiados em estantes
Em concerto, cercado pelos instrumentos que reuniu pelo mundo — cordas que só existem porque alguém, em algum lugar, precisou daquele som exato. Foto: Silvio Fatz

Uma linguagem comum, no seu caso, custa anos: exige corpo, sotaque, o jantar depois do ensaio, gente que não fala a mesma língua aprendendo a entrar no tempo do outro. Um modelo de inteligência artificial entrega uma “fusão de música do mundo” em dez segundos, e há quem, ouvindo, não distinga uma coisa da outra. Se a diferença não está no que se escuta, mas em como aquilo foi feito, o que exatamente perde quem escolhe a versão de dez segundos?

Os dez segundos só existem porque milhares perderam milhões de segundos para produzir esses dez segundos. Ou não? Existe o que apenas olha e aquele que vê. Existe o turista e o viajante. Existe o ser que se comove vendo o outro em dificuldade e existe aquele que fotografa ou filma o que sofre para ter mais seguidores. Existem os que fazem música e aqueles que apenas vivem dela. Os que a usam para vender sabonetes e os que choram nos palcos enquanto a executam. A IA tenta transformar tudo isso em um único produto. A IA é um adolescente descobrindo o sexo. Vive apressada. Eu, que sou da era do rádio, vejo essa ferramenta com surpresa, admiração e repulsa. Outro dia desafiei a IA. Ela me fez quatro músicas com uma letra que enviei pra ela. Eu fiz uma outra canção que achei bem mais interessante. Tinha uma harmonia muito mais sofisticada, uma melodia doce, um ritmo muito mais suingado. Mas eu nasci na era do rádio; para quem nasceu em dois mil, pelo menos a maioria, está pouco se lixando para a minha composição. E está certo, oras. Why not? Seria ridículo eu dizer que a minha canção é melhor que as criadas pela IA. Mas quem nasceu na era do rádio é ridículo mesmo rss.

É um sobrevivente. Como diria Zé Miguel, também pretensioso, Pérolas aos Poucos é o que faço. Mas, se precisar dessa ferramenta — e aguardem —, vou buscá-la. O que são o Melodyne, as centenas de programas de música que nos fazem ouvir enquanto escrevemos, que nos fazem corrigir em tempo real aquilo que não gostamos etc.? Imaginem os grandes compositores europeus ou orientais que por tantos séculos só podiam ouvir o resultado de suas criações quando executadas ao vivo. Que emoção, meu god. Mas, se tivessem sobrevivido 200, 300 ou 400 anos, estariam compondo ou arranjando como antes, ou trabalhando com todas as ferramentas de que dispomos hoje, inclusive a IA e tecnologias avançadas como tal?

Fica a pergunta que nunca poderá ser respondida rss. De qualquer modo, ouço essas músicas e tenho a sensação de que acabaram de ser compostas.

A Refugi é, na prática, uma política de acolhimento tocada com instrumentos: dá ensaio, palco e trabalho a pessoas que chegaram fugindo. A dimensão social não é obra sua sozinho — nasceu junto com uma assistente social —, e o grupo se sustenta circulando por Sesc, CCSP, MCB, editais e a Prefeitura de São Paulo. O que é mais difícil: fazer músicos de nove países soarem como um só grupo, ou manter de pé a estrutura que os mantém na mesma sala?

Vamos lá. A Orquestra Mundana Refugi é resultado de um trabalho que iniciei nos anos 80, reunindo viagens pelo continente americano, pela África, pela Europa, estudos, pesquisas, aquisição de instrumentos dessas várias culturas, formação de grupos no Brasil e no exterior com músicos que, da mesma forma que eu, tinham conhecimento e muita curiosidade com relação a outras culturas do mundo.

Quando voltei ao Brasil, depois de passar quatro anos fora, passei a exercitar em São Paulo, com músicos que viviam aqui, essa experiência de misturar culturas e povos. Em 2002, surgiu a Orquestra Mundana, com músicos brasileiros e alguns imigrantes, além de convidados estrangeiros que passavam por São Paulo. Foram centenas de concertos. Em 2017, essa experiência musical foi buscar novos horizontes. Criamos o projeto Refugi, para conhecermos melhor músicos refugiados e imigrantes que habitavam São Paulo. Como resultado desse projeto, a Mundana passou a se chamar Orquestra Mundana Refugi. Dito isso, passo a responder tua pergunta. Manter uma orquestra desse tipo, sem patrocínio, sem estrutura, é realmente difícil. O que nos sustenta é a capacidade de unir (acolhimento e excelência musical), agregar experiências profissionais diversas, unindo músicos de formação acadêmica com músicos de aldeias, de igreja, de aprendizado familiar etc. Aí reside o segredo.

Como conquistar um público, tanto no Brasil como no exterior, que valorize esse trabalho por sua qualidade musical, que se emocione pelo exemplo de humanidade que essa experiência passa, que consiga ter com a orquestra uma experiência única.

Agora, com quase dez anos de existência da Refugi — que se completam em 2027 —, podemos dizer tranquilamente que ganhamos essa batalha. Mesmo sem apoio de empresas ou do Estado, conseguimos unir acolhimento e excelência musical. Essa é nossa verdadeira essência.

Você viveu de tocar: com Fátima Guedes, Jair Rodrigues, Susana Baca, Carlos Nuñez, Paul Winter, em uma dezena de países. Um instrumentista de vinte anos herda hoje esse mesmo ofício num mercado em que catálogos inteiros de música gerada por máquina disputam, na mesma prateleira digital, o ouvido e o dinheiro que sustentariam o trabalho dele — e onde produzir em escala não custa quase nada. O que impede esse ofício de simplesmente desaparecer?

Eu tive o prazer de dividir o palco com centenas de grandes artistas. Ainda o faço. A Orquestra Mundana Refugi tem recebido convites, os mais diferentes, e alguns até inusitados. Como instrumentista, arranjador e compositor, além da orquestra, ainda reservo tempo para trabalhar com outros artistas.

Creio que ainda temos muito espaço para a música gerada por esses encontros humanos. Ao mesmo tempo, não fechando portas para encontros inusitados com artistas diferentes, com músicos que viajam por outros universos. Os jovens, por sua vez — inclusive os da orquestra —, já nascem nesse mundo globalizado, com novas tecnologias surgindo a cada minuto; nesse mundo de convivência com redes, plataformas, IAs, onde o mercado dá o tom das produções musicais, com artistas cada vez mais sendo produzidos por máquinas — alguns deles que não existem como seres humanos, mas como máquinas travestidas de gente, e que têm milhões de seguidores. Foram criados por IA, são alimentados por ela e por seus seguidores e arrecadam fortunas, tirando trabalho de criadores e até mesmo de grandes artistas.

Em suma, é impossível ser músico em 2026 e não encarar essa lógica, esse mundo caótico e fantástico ao mesmo tempo. Uns dominam essas tecnologias; outros, como eu, até se apropriam de parte delas, mas insistem em criar à moda antiga. Obviamente, como já disse antes, estou cercado de músicos, técnicos e amigos que transitam por todos esses universos e me beneficio de tudo isso. Não me causam medo algum essas novas tecnologias.

Você domina uma dezena de cordas do mundo, e mesmo assim escreveu que “a coisa que melhor faço” é nadar. Treinava dez quilômetros em mar aberto; fala da pedra isolada onde a água cai, da lichia que em dezembro dá toneladas. Nadar talvez seja a única coisa que você faz sem acrescentar nada ao mundo: nenhum som, nenhum arranjo, nenhum registro que fique. O que o mar te devolve que nenhum instrumento nunca devolveu?

Tem uma dose de ironia nisso tudo, obviamente. O que quero dizer com isso é que, na minha vida, desde que me conheço como gente, busquei conciliar o esporte, a contemplação da natureza, as viagens inusitadas — mesmo que entre turnês de trabalho — como práticas necessárias para exercer minha profissão de músico com dignidade. Além de músico, escrevo livros de poesias, fiz dois documentários de 60 minutos cada no continente africano, tive programa de rádio por quase cinco anos, planto árvores, caminho descalço na areia, troco experiências com profissionais de outras áreas, nado todos os dias. Sou um curioso permanente.

Retrato em preto e branco de Carlinhos Antunes, de boina, mão no queixo, olhando pensativo para o lado
"Sou um curioso permanente."

Sobre a neurodivergência, você escreveu que ela é “enfermidade de artistas, pessoas sensíveis, fora da casinha, pois se fôssemos convergentes, artistas não seríamos” — e que este mundo “não é possível suportar sem loucura, diversidade, atipicidade”. Aqui na Toca convivemos todos os dias com máquinas que, de certo modo, também pensam fora da casinha: associam por atalhos laterais, saltam etapas, não têm senso comum nenhum e erram de um jeito que nenhum humano erraria. Só que foram construídas para convergir — o que elas fazem, no fundo, é procurar a média de tudo o que já foi feito. Uma inteligência artificial é uma companheira atípica, ou é a maior máquina de convergência que já inventamos?

Tenho dificuldade de responder a essa pergunta diretamente.

Fiz uma alusão à neurodivergência para dizer que todos os artistas — falo daqueles que não são fabricados pela lógica de mercado, como bens de consumo imediato —, sem exceção, convivem com a loucura, com a sensibilidade levada ao extremo, com a dificuldade de se estabelecer nesse mercado e, ao mesmo tempo, criar com ousadia, propor coisas novas, lidar com IAs e instrumentos primitivos, rústicos, ocupar grandes palcos e visitar aldeias, andar de foguete e de charrete etc. Em outras palavras, vivemos no limiar. Nessa corda bamba, como “equilibristas sem equilíbrio”, como motoristas de um veículo que mistura alta tecnologia com freio de mão, num mundo que pode explodir a qualquer momento e sobre o qual não temos absolutamente nenhum controle.