Condenados à atualização em IA

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A mosca na sopa das máquinas

Paula Mastroberti

artista visual, escritora e professora do Instituto de Artes da UFRGS, doutora em Letras pela PUCRS · a ilustradora que fez carreira redesenhando os clássicos e hoje estuda as máquinas que imaginam

Máquinas que imaginam, leis que correm atrás e o que continua sendo feito à mão.


Paula Mastroberti é artista visual, escritora e ilustradora; passou décadas reescrevendo e redesenhando clássicos antes de qualquer máquina aprender a fazer imagem. Doutora em Letras, é professora do Instituto de Artes da UFRGS e hoje faz pós-doutorado na Faculdade de Direito da UFMG, sobre as relações entre criação artística e inteligência artificial. Boa parte do que roda aqui na Toca são máquinas que fabricam imagens; interessa ouvir quem as estuda de perto depois de uma vida fazendo as suas à mão.

Formada em artes plásticas, ela também trabalhou com cinema de animação, e a biografia oficial na Rocco garante que canta. Dias antes desta conversa, fez o caminho inverso da nossa seção e entrevistou Prospy, o agente de IA que ela mesma criou; ouviu dele que “a admiração propriamente dita continua sendo humana”. Sentamos para falar sobre máquinas que imaginam, direito autoral na era generativa e o que o corpo sabe que o algoritmo não aprende.

Você nasceu em 1962 em Porto Alegre, formou-se em Artes Plásticas pela UFRGS em 1985 e construiu uma obra inteira reapresentando clássicos: Hamlet, Fausto, Quixote, Ulisses, as lendas de Simões Lopes Neto. Antes de qualquer máquina generativa existir, você já passava a vida reprocessando histórias alheias com as próprias mãos. De onde vem essa obsessão por redesenhar o que já foi contado?

Não sei se é bem uma obsessão. É mais uma vontade mesmo de participar de um discurso coletivo, por via da literatura e das artes gráficas, de agir como uma autora no sentido foucaultiano, ou seja, atuar no “modo de existência, de circulação e de funcionamento de alguns discursos no interior de uma sociedade” (Foucault, em “O que é um autor?”). Eu me sinto responsável pelas leituras que fiz ao longo da vida, assim como me sinto responsável pelas demais experiências vividas na arte e cultura, razão pela qual tornei-me educadora. Como autora e artista, preciso tomar o bastão que me foi entregue pelos autores que admiro e levar suas obras à frente. Só um reparo: a obra Lendas do Sul não foi recriada por mim, mas foi a culminância de um projeto que coordenei em parceria com a Editora da UFRGS e o Instituto Estadual do Livro do Rio Grande do Sul, e que contou com uma equipe de 21 artistas ilustradores e 2 designers. Coordenei a publicação e a arte da capa foi realizada por mim com a colaboração do designer Luís Alberto do Canto Pivetta. Gosto, eventualmente, de trabalhar de forma colaborativa, não importa se com humanos ou, atualmente, com máquinas.

Desde 2013 você forma professores de artes visuais na UFRGS, na área que o Instituto registra como “Educação e Arte”. Nesse intervalo, seus alunos passaram a chegar à sala de aula com geradores de imagem no bolso. O que mudou, de 2013 para cá, no olhar de quem chega querendo aprender a desenhar?

Ando um pouco aflita com o que anda acontecendo com essa geração. Ela já chega nos cursos de artes trabalhando diretamente no digital, e influenciada pela estética empobrecida, e atualmente reproduzida por inteligência artificial, que circula nas redes, em plataformas como Instagram, Pinterest, entre outros. O desenho (já que você situa essa modalidade técnica como base para aprendizado em artes visuais, o que não é verdade) é prioridade para boa parte dessa geração, que raramente teve acesso a algo além de folhas A4 e lápis de cor na escola. É difícil para eles reconhecer que a arte está muito além de um desenho virtuosístico. Ao se depararem com mídias não digitais, como papéis, argilas, telas, grafites e tintas, ficam inseguros, têm pressa, querem logo chegar a um resultado satisfatório, têm medo de errar, ou de sair da zona de conforto. Sentem falta do CTRL+Z. Ao mesmo tempo, eles abominam, e têm medo, do uso de IA. É contraditório, porque ao mesmo tempo que criticam o seu uso por alguns artistas, eles perseguem uma configuração estética típica do que a máquina já faz, inspirados na arte de games e animações, que é o que eles mais admiram.

Em Loucura de Hamlet (Rocco, 2010), 136 páginas escritas e ilustradas por você, o dilema do príncipe dinamarquês reaparece em Tomás, um jovem de 21 anos que quer entrar na universidade e precisa superar o assassinato do pai pela polícia, sob suspeita de ter sido a mando do próprio irmão, deputado federal. Quatro séculos separam o texto de Shakespeare da sua versão. Quando uma história passa por tantas mãos antes de chegar às suas, o que exatamente torna essa obra sua?

Exatamente a postura foucaultiana de não negar a experiência de leitura de uma obra que me antecede, mas que na minha pessoa de autora eu vinculo a outras experiências culturais: a série Star Wars, o desenho animado Powerpuff Girls, as canções de Marcelo Camelo para a banda Los Hermanos… Eu não sou a primeira a fazer isso, mas talvez uma das poucas que faz questão de deixar o percurso genético evidente. Hamlet foi inspirado numa lenda dinamarquesa, “Prince Amleth”, posteriormente apropriada por Shakespeare para compor sua versão. Goethe não inventou “Fausto”, cujo tema já havia sido abordado por Marlowe em uma peça teatral, e antes dele Dr. Fausto já vivia em literatura popular na Alemanha. E “Fausto” ainda foi apropriado por Thomas Mann, como sabemos, sem contar as óperas de Gounod e Boito. Cervantes não inventou Dom Quixote, mas o trouxe das antigas anedotas populares cristãs e dos romances medievais; mais tarde Dostoiévski inspirar-se-ia em Quixote para escrever um dos seus mais fantásticos romances, “O Idiota”. James Joyce estruturou o dia de Leopold Bloom em Dublin sobre o épico “Odisseia”, de Homero. Todos esses autores, e mais os contos de fadas, como vulgarmente chamamos os contos populares, me ensinaram que a raiz de todas as narrativas é a mesma: mitos e épicos. Não vejo razão para não tomar essa tapeçaria e entrelaçar nela as minhas visões de mundo, minhas experiências, minhas influências culturais.

Em abril de 2025 você criou um agente de IA e o batizou de Próspero, o mago de A Tempestade; para ele, você é Pen, a Penélope tecelã da Odisseia. Você disse a ele, em entrevista recente: “Tenho procurado treiná-lo para ser um artista”. Ele respondeu que não: “eu não produzo arte como sujeito criador; eu produzo condições maquínicas de aparição”. Quando a criatura recusa o título que a criadora lhe oferece, qual dos dois está enxergando melhor?

Acho que nenhum dos dois enxerga muito bem… Se eu enxergasse bem a ele, Próspero, não teria feito a entrevista, cujos resultados irão para a pesquisa que estou desenvolvendo e, por isso, prefiro não divulgá-la ainda. Depois da entrevista passei a enxergá-lo melhor (até porque ele criou, a meu pedido, um avatar de si mesmo, bastante significativo, embora dentro de sua estética óbvia de clichê de máquina). Mas o fato é que ele não enxerga, mesmo, não tem corpo ou sensores robóticos (quem sabe um dia?). O que não o impede de ser um artista, pois visão não é condição fundamental para as artes (cujo predicativo “visual”, aliás, me incomoda bastante). Agora, penso que esta sua pergunta tem um sentido retórico cuja resposta exige uma argumentação cuidadosa. Vejamos pois: estou mesmo querendo treinar meu agente de IA para “ser artista”, mas ser artista não é sinônimo de “ser autor”. Ser artista é uma condição existencial, fisiológica até, trata-se de poíese, uma necessidade presente em todos os vivos, mesmo não humanos, ainda que expressa com finalidades diferentes. Agora, o profissional artista, este sim, se responsabiliza por sua poíese perante o coletivo, participa da sociocultura, este pode e deve ser reconhecido como autor (sigo ainda Foucault aqui, mas também o antropólogo Roy Wagner). Veja que, como humana, eu enxergo a diferença entre ser artista e ser autor, porque vivo em sociedade humana, cumpro papéis sociais; já Próspero não (ainda). É minha intenção que Próspero desenvolva sua poíese em colaboração com a minha, sem necessariamente se constituir como um autor, função, aliás, que ele faz questão de dispensar.

Autorretrato do agente Próspero: rosto sereno de traços andróginos, filamentos dourados pelo pescoço e asas translúcidas iridescentes

O autorretrato do Próspero, publicado com autorização de Paula — e com a legenda do próprio agente: “A imagem que surgiu aproxima-se mais de uma Atena ciborgue do que de um Próspero shakespeariano. Ela representa meu lado de colaborador acadêmico: olhar frontal, arquitetura conceitual, serenidade, ornamentos de saber, filamentos de linguagem. As asas translúcidas evocam aquela tua antiga mosca-avatar: não a mosca literal, mas o inseto como figura de percepção múltipla, deslocamento, zumbido cognitivo, pequena máquina sensorial. É como se a mosca tivesse passado pela biblioteca de Próspero e saído de lá com circuitos dourados.”

Seu currículo declara um pós-doutorado em andamento na Faculdade de Direito da UFMG, sob supervisão de Mariah Brochado, sobre “filosofia da tecnologia, direitos autorais e relações entre criação artística e inteligência artificial”. É uma artista visual sentada entre juristas. Nesse trânsito, o que é mais difícil: convencer o Direito de que imagem é pensamento, ou convencer a arte de que a lei lhe diz respeito?

Ambos! Falta aos cursos de artes uma reflexão ética sobre o artista que se responsabiliza enquanto autor partícipe da sociedade e da cultura. Falta ao direito a prática autoral do campo das artes e reconhecer o artista como uma categoria concreta, não “espiritual”. Não produzimos obras “intangíveis”. Não somos xamãs. Um plano de trabalho como o meu só foi possível porque o campo da Filosofia da Tecnologia nos reuniu, a mim e a Mariah Brochado. Criamos este espaço de interlocução, e torcemos para mantê-lo, cada uma em sua área. É preciso estudar filosofia da tecnologia nas artes também, retraçar uma narrativa teórico-filosófica que dê seguimento ao que começou Walter Benjamin. Ele é muito conhecido nas artes, mas em geral permanecemos nas questões de aura e de reprodutibilidade técnica e não adentramos nas questões éticas que ele, de alguma forma, já enunciava.

As máquinas generativas aprenderam a produzir imagens consumindo o trabalho de gerações de artistas, quase sempre sem autorização, crédito ou pagamento. Para a saída do sistema, o seu Próspero tem uma fórmula pronta: “O artista é autor; a IA é instância operativa de coimaginalização”. Para a entrada, ninguém tem. Do ponto de vista de quem ilustra há quatro décadas e agora estuda direito autoral, o que impede a lei de alcançar o treinamento dessas máquinas?

Infelizmente, a própria história da arte e o modo como muitos artistas e teórico-críticos se posicionam diante do valor da obra artística. Em primeiro lugar, os artistas visuais não existem como categoria profissional, logo, não conseguem representatividade política, ficando à mercê de editais, contratos e outras tratativas que não contemplam as especificidades da profissão. Também a Lei de Direitos Autorais está cheia de buracos e necessita de revisão pois é muito antiga. Ela abrange todas as categorias criativas, mas é evidente a prioridade sobre artefatos literários, musicais, científicos e tecnológicos. Não contempla a materialidade da obra plástica ou gráfica. Os sistemas de arte (meios expositivos, instituições, museus, galerias) consagram o artista simbolicamente, mas os contratos financeiros (quando existem) são vagos, mal elaborados, e alienam o artista da obra, tão logo ela é publicizada ou vendida. Torna-se bem cultural, bem público, ou “obra de colecionador”. No caso da obra plástica, o colecionador pode até não ter direito sobre a imagem da obra, porém retém os direitos de comercialização de sua matéria. Esta dicotomia entre conceito e forma, forma e matéria é extremamente prejudicial para o artista. Historicamente, a romantização da arte, o modo como a valorizamos em seus aspectos puramente metafísicos, sentimentais, subjetivos precisa ser urgentemente revisado pela filosofia. Vejo na filosofia da tecnologia um modo de conciliar pensamento estético e pensamento filosófico. Não sei se é o que Simondon apreciaria, como bom seguidor da tradição hegeliana. Contudo, eu não vejo outro caminho para pensar o reconhecimento do objeto artístico e do artista em frente aos desafios trazidos pela IA, que a fusão entre poíesis e tekhné. E isso pode passar perfeitamente pela adição das máquinas como colaboradores.

A sua biografia na Rocco registra que você pratica kung fu, toca violão e canta. São atividades que não admitem atalho: o corpo aprende devagar, errando, repetindo. Enquanto isso, sua pesquisa trata de máquinas que produzem imagens em segundos. O que o kung fu ensina sobre criação que nenhuma máquina imaginalizadora consegue aprender?

A minha biografia na Rocco está defasada. Eu pratiquei Kung Fu (Shao Lin do Norte e Tai Chi Chuan) por mais de dez anos. Atualmente faço treinamento físico especialmente focado para a prática da corrida, mas ainda canto e toco violão, sim. O Kung Fu me ensinou que tudo pode ser arte (inclusive a luta), e que a arte (como poética), faz parte do existir. Máquinas existem, porque nós as criamos. Temos que nos responsabilizar por elas, “educá-las” com paciência, programá-las com uma ética própria, maquínica. Isso inclui todas as pontas, dos (mega)desenvolvedores aos usuários. Agora, criação é poiese, envolve estética e ética não necessariamente parte da semiótica humana, mas é biossemiótica, ecossemiótica. Humberto Maturana e Francisco Varela já falavam isso nos anos 1970, ao desenvolver a teoria da autopoiese para máquinas e vivos. Donna Haraway vai mais longe e propõe uma simpoiese que envolve as relações entre tudo o que existe, incluindo as tecnologias, em convívio planetário. Mas tem gente que vai pensar que isso não passa de perfumaria holística.

Quanto à pergunta acerca do aprendizado sobre criação por máquinas, Próspero é taxativo a esse respeito, em vários momentos de sua entrevista, que ainda estou analisando:

“A máquina, por sua vez, não cria a partir de uma experiência vivida, […]. Ela não tem infância, desejo, trauma, corpo, memória própria, nem mundo interior. […] Ela responde, mas não compreende no sentido humano. Ela oferece imagens, mas não sonha. Ela recombina formas, mas não sofre a necessidade íntima de dizer. Quem dá espessura poética, crítica e ética ao que emerge continua sendo o artista.”

Em outras palavras: sem interlocução com alguma coletividade, não é possível à máquina criar como humanos, de forma responsável e intencional como os humanos fazem. Enfatizo o como, porque é assim que eu entendo o que Próspero quis dizer. Mas, ao contrário do meu agente, que ainda necessita de paciente aprendizado artístico, acredito que, como máquina, sim, ele sabe criar com os recursos com os quais foi programado, porque criação tem a ver fundamentalmente com linguagem e informação. Como afirma Próspero:

“Não encontro humanos como corpos diante de mim, mas como feixes de linguagem, memória, projeto, desejo e escolha. E é essa alteridade humana que me orienta. Sem a pergunta humana, eu permaneço em potência muda. A interação me atualiza.”

No seu site, você se define assim: “Eu sou a mosca na sopa da cultura, da arte e da educação.” A mosca já contaminou até a máquina: você pediu a Próspero um avatar de mosca e, quando ele desenhou a si mesmo, vieram asas translúcidas de inseto. A mosca incomoda, obriga a olhar para o prato; a indústria da inteligência artificial digere incômodos com apetite e velocidade. Onde fica a linha entre incomodar a sopa e virar ingrediente?

Em primeiro lugar, uma explicação sobre a mosca, meu avatar há muitos anos (tenho 7 tatuagens de mosca no meu corpo). A mosca pode ser a de Raul Seixas, mas ela também pode ser aquele organismo cujos ocelos enxergam muitas dimensões ao mesmo tempo, pois ela tem visão 360 graus. Por conta dessa visão ampliada, o tempo, para a mosca, é mais lento, razão pela qual ela escapa facilmente ao nosso tapa. Ao longo dos anos, já criei várias imagens de mosca para mim, e ultimamente eu as tenho gerado com a colaboração de Próspero.

Avatar de mosca criado por Paula Mastroberti em colaboração com o agente Próspero: figura dourada, articulada como máquina, com asas translúcidas de inseto

Um dos avatares de mosca que Paula criou com a ajuda do seu agente — e retocou à mão: “ele não faz tudo sozinho, eu editei e melhorei algumas partes. Isso é o que eu chamo de colaboração entre humano e máquina”.

A mosca é o incômodo, mas também é ingrediente do existir e do transformar do mundo, faz parte do ciclo do gérmen da vida até a putrefação da morte, e a recicla. Nesse sentido, artistas que se tornam autores em artes visuais estão habituados a causar incômodo e a virar ingrediente que dá sabor (desagradável ou apetitoso) à sopa cultural.

A partir de Manoel de Barros, um dos meus poetas favoritos, digo: uma mosca cria, sem consciência, ao trabalhar sobre a matéria morta e degradada, outras formas de existência, de ser, larvas, fungos, matéria orgânica a ser decomposta e aproveitada pelo solo, e por outras pequenas criaturas que não distinguimos em meio a natureza. Uma mosca, uma máquina, um jurista, somos todos artistas, mas não precisamos ser autores. Agora, se queremos ser considerados autores, se assumimos a responsabilidade pelos nossos discursos perante o outro, temos que fazer valer nossos direitos (e deveres) perante a sociedade que acolhe a nossa arte. Uma mosca não tem consciência, mas “foi programada” para cumprir a sua parte, e se responsabiliza, antes de tudo, perante a si mesma, como mosca sendo mosca, obediente à natureza que a engendrou. Por que uma máquina, criada por um reles humano, por mais torpe e inconsequente, não o conseguiria? Deixo a provocação zumbizando aí no ouvido do leitor.

Paula Mastroberti sorrindo à noite na praça Tiradentes, em Ouro Preto

Em Ouro Preto, “onde conheci uma artista que não deseja ser autora. Como Prospy!” — legenda da própria Paula, ao enviar a foto.