Copiloto, não piloto
Alessandro Trovato
MVP da Microsoft, engenheiro de software e instrutor da LinkedIn Learning · ensina gente comum a extrair das ferramentas de todo dia mais do que elas parecem oferecer
Produtividade sem mistificação, o ofício de ensinar a máquina a servir e o que, no aprendizado, continua sendo só nosso.
Tem quem suba ao palco da inteligência artificial e quem faça a engrenagem girar nos bastidores; Trovato é do segundo tipo. Reconhecido pela Microsoft como MVP — título que a empresa reserva a quem se destaca ajudando a própria comunidade —, construiu uma carreira ensinando os outros a extrair, das ferramentas de todo dia, mais do que elas parecem oferecer. E boa parte das engrenagens invisíveis que mantêm a Toca funcionando (as planilhas que ninguém vê, os atalhos que poupam uma tarde inteira, o Office que sustenta o resto) começou com alguém ensinando o truque.
Por dentro, há uma escolha que diz muito: quem passa o dia otimizando o trabalho alheio poderia se vender como guru de eficiência, e ele prefere falar de gente. Sentamos para falar sobre produtividade, o lugar que a inteligência artificial ocupa no trabalho diário e o que, no meio de tanta automação, ele ainda faz questão de manter humano.
Você se apresenta numa ordem que diz muito a seu respeito: “engenheiro de software por formação, analista de treinamento e desenvolvimento por profissão”. Primeiro construir a máquina, depois ensinar gente a usá-la. São duas vocações que nem sempre moram na mesma pessoa. O que aconteceu no caminho entre escrever código e querer estar na frente de uma sala explicando como ele funciona?
A arte de ensinar para mim é uma retribuição a um dom que me foi concedido, o dom de ensinar. Não tenho formação pedagógica, mas sempre fui apaixonado por estudar e consequentemente por ensinar.
Meu primeiro desafio nessa área foi aos 21 anos, em uma empresa do setor automotivo em que trabalhava. Tive que explicar para o diretor da empresa como um programa chamado Works, da Microsoft (antecessor do Office), funcionava. O interesse dele era no editor de textos e no aplicativo de planilhas eletrônicas que continham no pacote.
Para executar a ordem tinha alguns problemas para resolver: o manual estava em inglês e eu não dominava nem o idioma e nem o programa. Foram 30 dias de muito estudo e prática e, após esse período de aprendizado, ensinei-o a utilizar os programas.
Recebi o primeiro elogio do diretor e deste dia em diante acredito que a paixão por ensinar se fortaleceu. São mais de 30 anos trabalhando na área de tecnologia (com pequenas interrupções na carreira para atuar na área administrativa). Em nenhum momento deixei de ensinar o que aprendia.
Compartilhar conhecimento passou a ser minha ideologia. Sem restrições e a quem quer aprender de verdade.
Transferir conhecimento, ver que há uma evolução do aluno, é o combustível que me mantém ativo até hoje.
Em 12 de maio de 2021 você publicou na LinkedIn Learning um curso sobre produtividade no Microsoft 365 — Teams, SharePoint, OneDrive, automações. De lá para cá o Copilot entrou em quase todas essas telas e hoje convive, no seu próprio catálogo, ao lado do Excel e das macros. O que mudou, de 2021 para cá, no que as pessoas de fato pedem quando dizem que querem “ser mais produtivas”?
Em 2021, a produtividade almejada vinha do conhecimento que a pessoa carregava em si. Sua experiência pessoal e a aplicação de tudo aquilo que ela aprendeu sobre uma ferramenta em suas atividades. Ela estava sempre em busca do domínio de ferramentas como Excel, Word, SharePoint, entre outras.
Esse tipo de especialista está hoje com um universo de possibilidades inimagináveis disponível em suas mãos. Desde que saiba aproveitá-las.
O diferencial deixou de ser apenas conhecer a ferramenta e passou para orientar essa ferramenta a produzir o conteúdo desejado.
O Copilot (o copiloto de inteligência artificial da Microsoft) deixou de ser uma ferramenta de consulta para ser uma ferramenta de produtividade. Integrado com o Microsoft 365 (mediante uma assinatura), oferece acesso ao universo de dados e informações coletadas e armazenadas pela empresa, além dos recursos já conhecidos do chat.
Essa integração permite que as pessoas peçam à IA que interaja com seu trabalho, como por exemplo resumir atas de reunião, produzir textos de respostas para e-mails, criar apresentações no PowerPoint, realizar traduções e adaptações de texto, analisar dados e principalmente evitar retrabalhos.
Hoje, ser produtivo significa ter mais tempo disponível com menos esforço, delegando para o Copilot parte dessas atividades.
Esse curso tem um formato incomum: em vez de aula expositiva, são perguntas e respostas — você ensina respondendo. Deu certo: 4,7 de 5 em 72 avaliações, a esmagadora maioria nota cheia. Quando você decide ensinar a partir das dúvidas dos outros em vez de seguir um roteiro só seu, o que as perguntas dos alunos acabaram te ensinando que você não teria descoberto sozinho?
É importante notar que o grau de conhecimento do(a) instrutor(a) na criação de um curso está limitado à sua vivência pessoal e profissional.
O cenário que enxergamos é limitado e, em determinado momento, isso pode ser um fator de bloqueio criativo.
As demandas apontadas pelos alunos em fóruns de discussão, grupos e comunidades em redes sociais alimentam a visão do instrutor com um universo de possibilidades de aplicação da ferramenta que, muitas vezes, ele não vivenciou.
Quando sentimos e identificamos corretamente a necessidade ou a dor do aluno, o curso passa a ser assertivo, bem avaliado e com um baixo volume de suporte.
Prever quais são essas dores, diagnosticá-las e aplicar o conhecimento como bálsamo curativo é o melhor dos caminhos para o aprendizado.
Ensinar é a arte de tirar do aluno as dificuldades do aprendizado. E por que não aproveitar essas dificuldades vindas diretamente da parte interessada?
Na sua bio você se chama de “incentivador de pessoas”. Mas quase tudo que você ensina, atalhos, automações, Copilot… existe para que a pessoa faça mais em menos tempo, e às vezes para que a máquina faça no lugar dela. Na prática, como você percebe quando uma ferramenta está incentivando alguém a pensar e quando está apenas poupando essa pessoa de pensar?
O conceito de incentivador de pessoas é antigo e veio como uma forma de colocar a pessoa acima do profissional. O ser humano antes do funcionário.
Sempre priorizei a pessoa que está na posição de aluno. Atuar na sua formação garantindo que ela absorva conhecimento de forma correta e crie uma plataforma sólida de conhecimento para aplicar, sempre foi meu principal objetivo.
Mostrar o caminho a ela, retirar a dificuldade no processo de aprendizado e mostrar na prática que ela é capaz de aprender torna tudo possível!
Ensinar a utilizar Inteligência Artificial, programas de automação, desenvolver macros ou qualquer outra atividade que envolva a execução de atividades de forma indireta ou automática não tira do aluno a arte de pensar.
Pelo contrário!
Todas essas atividades precisam de técnicas. Mesmo as atividades mais simples, como a criação de um prompt em linguagem natural para solicitar algo à IA, ou até mesmo criar um script complexo e bem estruturado em Python para a automação.
O aluno sempre precisará: estudar, aplicar o conhecimento, errar, corrigir e reiniciar esse ciclo. Reaprender também é uma atividade necessária, pois sempre há atualizações das ferramentas ou tecnologia. Elas poupam tempo, mas não poupam esforço.
Deixar de pensar e delegar todas as atividades cegamente a processos que são automatizados com IA ou com programação No Code / Low Code (sem código / baixa codificação) é um erro e traz sérios riscos.
O conhecimento tácito dos processos e ferramentas permite explorar as criações, dar manutenção quando necessário e garantir a sua correta operação. Mesmo na falta da ferramenta, esses conhecimentos ainda poderão ser aplicados.
Conhecimento é algo que não perde valor e ninguém pode tirar de você!
Há um detalhe curioso na sua presença pública. Na bio do seu curso aparecem vínculos com a i2AI e o MTAC, ligados à pauta da inteligência artificial; já no seu Linktree e no Instagram, onde você fala em nome próprio, esses títulos somem e sobra “MVP Microsoft, engenheiro de software, youtuber”. O que é mais difícil: pertencer a um meio que vende a IA como o assunto do momento, ou se apresentar pelo trabalho miúdo de produtividade que você realmente faz todo dia?
O mais difícil é mostrar que meu trabalho não está preso à moda da IA, mas à aplicação prática da tecnologia para resolver problemas reais e melhorar a produtividade.
Levantar apenas a bandeira do uso da Inteligência Artificial e ignorar completamente outras atividades ou áreas, para mim, é um erro.
Em minha visão, o reconhecimento feito pela Microsoft com o prêmio MVP (Most Valuable Professional) por 8 anos seguidos e em duas categorias (Microsoft 365 e Excel) tem um peso muito especial em minha trajetória. É o reconhecimento pelo trabalho que faço há mais de 15 anos na comunidade técnica.
O YouTube sempre foi um canal de compartilhamento de conhecimento de forma gratuita, não como uma busca por fama ou me tornar uma celebridade. Meu objetivo sempre foi levar conhecimento gratuito para quem realmente quer aprender.
A formação como Engenheiro de Software me permite ter uma visão ampla de negócio e, somada à minha experiência de mais de 15 anos na área administrativa, me permite entender o ambiente de negócios dos clientes e dos alunos que fazem os cursos. É a prática associada à teoria que leva à solução, vinculando todas as áreas.
Na biblioteca de cursos do LinkedIn Learning tenho vários trabalhos ligados à Inteligência Artificial, ao Excel e aos demais aplicativos do universo Microsoft 365. Atualmente são 60 cursos publicados com mais de 1,4 milhão de alunos ativos. Um impacto que também só foi possível devido à visibilidade atingida com o YouTube.
Não me defino com rótulos ou títulos, mas gosto de resumir minhas atividades como sendo um compartilhador de conhecimento.
No que depender de mim, continuarei com essas atividades, nas mais diversas áreas e canais de comunicação, enquanto houver energia, disposição e pessoas que queiram aprender algo.
Você passou anos mostrando que dá para extrair de um Excel ou de um Teams coisas que a maioria das pessoas nem imagina existir. Agora a promessa do Copilot é que basta pedir em português para a máquina fazer. Pela sua experiência de sala de aula, o que ainda impede uma pessoa comum de tirar da IA o mesmo proveito que você tira de uma planilha?
O que impede uma pessoa de extrair o máximo proveito de uma IA é o fundamento sobre o assunto. Pedir algo para a IA é fácil. Ter uma ação bem executada, sem falhas e do jeito que o usuário está imaginando, é difícil.
Conhecer IA é diferente de utilizar IA. Quando passamos a utilizar de forma consciente, sistemática e aplicada ao nosso dia a dia, há uma evolução nas respostas e diminuição no volume de alucinações (respostas inconsistentes dadas por IA). A qualidade do trabalho melhora e o leque de opções aumenta.
A integração da IA com nossas atividades do dia a dia não vem com a escrita do primeiro prompt. Vem da criação, execução e adaptação do prompt até chegar ao resultado desejado.
Há uma arte na escrita de prompts para uma Inteligência Artificial, seja qual for ela, e aprimorar essa arte não ocorre da noite para o dia.
Nem toda ferramenta de IA servirá para tudo. Você terá que experimentar outros modelos, outras tecnologias de IA, até chegar ao ponto de saber avaliar qual modelo ou ferramenta utilizará. Qual atenderá melhor sua necessidade.
Como instrutor, meu objetivo é demonstrar toda a potencialidade de recursos de uma ferramenta (como citado, o Teams) e, no uso de IA, você saberá exatamente o que pedir e reconhecerá os limites de integração entre elas. Nem todas as ferramentas responderão a 100% das solicitações de forma correta, e reconhecer esses limites pode poupar muito retrabalho para o usuário.
Antes de transferir responsabilidades para o uso da IA, conheça os programas que estão integrados e que são afetados por ela.
Você se descreve como youtuber e passa boa parte do tempo otimizando o trabalho dos outros, cortando cliques, automatizando tarefas, ganhando minutos. Quando fecha o computador, o que na sua vida você faz questão de deixar lento, ineficiente, do jeito difícil?
Eu respiro tecnologia e inovação praticamente em todos os horários que estou desperto.
Quando fecho o computador a mente não descansa. Ela está sempre procurando novidades que podem ser convertidas em cursos ou artigos.
Uma atividade que me permite ficar lento e me desligar é a leitura. Ela faz com que meu cérebro diminua o ritmo e foque apenas no tema do livro. Ele deve ser lido e apreciado com calma e atenção. A compreensão e a assimilação do seu conteúdo vêm da leitura cuidadosa e paciente.
Esse tempo de leitura e redução da velocidade me permite ter momentos de serendipidade e, com eles, a criatividade é ativada para voltar a produzir, seja um artigo, um vídeo ou um curso completo.
Não uso IA para resumir artigos, livros ou vídeos. A inteligência artificial para mim é uma ferramenta de produtividade. Resumir, escrever e manipular textos deixo para ela no horário de trabalho; fora dele, folhear um livro físico, trocar as páginas na leitura e acompanhar parágrafo a parágrafo, não tem sensação melhor.
Meditar também é uma das atividades que tenho buscado nas horas vagas. Manter o ponto focal em uma atividade única, metódica e repetitiva reduz o stress e a ansiedade, companheiras inseparáveis nesse período de conexão com redes sociais e interação constante no mundo virtual.
“Copiloto” é uma palavra que você ensina e tem até um curso seu com esse nome. Num avião, o copiloto pode assumir os controles, mas a responsabilidade final tem dono; na mesa de quem usa Copilot todo dia, essa divisão é bem menos clara. Onde, para você, fica a linha entre a máquina ser o copiloto e a pessoa virar passageira do próprio trabalho?
Esse é o ponto principal do uso da Inteligência Artificial que muitos ainda não conseguiram identificar e aplicar.
Eu orientaria as pessoas a fazer antes e pedir auxílio à IA depois, para revisar e melhorar. Não o contrário!
Usar a Inteligência Artificial como piloto, entregando a ela todas as responsabilidades, é prejudicial, pois delegamos a capacidade de pensar e executar a uma ferramenta. O que aconteceria hoje com você se essa ferramenta deixasse de funcionar? Há outro detalhe importante: se você der autonomia completa para a IA no formato de um agente, quem está conferindo o trabalho dela? Você está confiando cegamente que tudo o que está sendo feito está correto?
Essas são perguntas que todos devemos fazer.
Quando colocamos o Copilot em seu lugar, como um copiloto ao nosso lado, temos um especialista disponível para ajudar, revisar, sugerir caminhos e potencializar nossas atividades. Mas a responsabilidade final continua sendo humana.
Para mim, a linha é esta: enquanto a pessoa define o objetivo almejado, entende do processo, valida o resultado e responde pela decisão final, a IA é copiloto. Quando a pessoa apenas aceita, copia e executa ações sem compreender ou revisar, vira passageira do próprio trabalho.
