Ninguém vira borboleta com pressa
Adriana Elisa Lagrasta Bozzetto
professora de apoio pedagógico especializado, em Dourados, e escritora · usa IA para adaptar o ensino a um aluno por vez, sem terceirizar o que é humano
O sanduíche humano-máquina-humano, o casulo que ela monta sem acelerar a metamorfose, e o que num gesto ou num silêncio do aluno ainda não cabe em modelo nenhum.
Adriana Elisa Lagrasta Bozzetto é escritora e professora de apoio na rede municipal de Dourados. Antes da pedagogia, formou-se em Relações Internacionais na Universidade Federal da Grande Dourados e cursou mestrado na Universidade do Porto, em Portugal. Seu ofício é fazer o conteúdo chegar a quem aprende de outro jeito, e a inteligência artificial virou ferramenta desse trabalho. Aqui na Toca, onde a gente vive de olho em tudo o que as máquinas já fazem sozinhas, é dela o gesto que mais nos interessa: o de sentar com uma criança de cada vez.
Antes da sala de aula, ela já levava histórias a quem mais precisava: entre 2014 e 2017 foi voluntária e depois coordenou o núcleo de contação de histórias do Projeto Bem-me-Quer, em Dourados, que visita pacientes do hospital universitário, idosos e crianças abrigadas. Escritora de palavra cuidada e paciência de sobra, mergulhou de cabeça numa tecnologia feita de pressa e escala — não por rendição, mas por escolha. Sentamos para conversar sobre o tempo lento de aprender, o que a inteligência artificial promete adaptar pela gente e o que, no cuidado com o outro, continua sendo humano.
Você escreve desde os onze anos, quando folheava o portfólio da sua mãe, escritora e artista, e decidia ali que seria como ela. Já adulta, descreveu o que sente assim: “Começam a se formar frases e versos na minha cabeça e passam a me seguir.” O que havia naquele portfólio que decidiu, tão cedo, o rumo que você ia tomar?
Naquele portfólio tinha a minha mãe, que tem o mesmo nome que eu e quase a mesma aparência… Como a maioria das meninas, estava me inspirando em minha mamãe. Mas ao invés de roubar roupas, sapatos, perfumes e maquiagem, resolvi ir pro caminho das letras. Apesar de sentir que escrevo desde os onze anos, sei que quando era pequena já brincava de escritora, confeccionando livrinhos com encarte de atividades, igual os que minha mãe tinha feito. Lembro que eu gostava de ficar folheando aquele portfólio… Até que chegou o dia e decidi que, se quisesse fazer igual, teria que colocar as mãos e o cérebro para trabalhar.
Como professora de apoio em Dourados, você passou anos adaptando material à mão, texto a texto, para que um aluno com deficiência ou em dificuldade coubesse na mesma aula que os colegas. Em vez de só conviver com a inteligência artificial, você foi atrás dela — faz cursos, estuda a tecnologia — para desenvolver aplicativos e materiais que façam essa adaptação. O que a IA te permite alcançar hoje que o trabalho manual, sozinho, nunca ia dar conta?
A Inteligência Artificial me permite alcançar números e resultados que, sozinha, eu não conseguiria. Primeiro, porque ainda o município nega aos Professores de Apoio Pedagógico Educacional Especializado algo essencial ao nosso trabalho: a hora-atividade. Segundo, porque os recursos da IA permitem que eu otimize meu tempo na confecção de atividades personalizadas, organize meus pensamentos, consiga coletar e analisar dados diversos sobre o desenvolvimento de meus alunos (sempre respeitando a privacidade deles e o não compartilhamento de dados sensíveis), identifique padrões comportamentais e pedagógicos e elabore materiais mais complexos que, manualmente, demorariam até meses para ficarem prontos. A IA torna o atendimento individualizado e personalizado, tão essencial à Educação Especial, uma realidade palpável, mostrando que há formas dele acontecer sem necessariamente utilizar caminhos exaustivos.
Em 2021 você montou à mão o Caderno Pedagógico de O Sol de Pirlimpim, escolhendo cada caminho de leitura. Hoje você desenvolve artefatos de adaptação — materiais de apoio e aplicativos que remodelam um conteúdo para o aluno que aprende de outro jeito. Escolha um desses artefatos que você criou e conte para a gente o que ele faz, e onde, nele, está a sua mão e não a da máquina.
Vou escolher o artefato para geração automática de relatório pedagógico… Na escola onde trabalho, preenchemos todos os dias um diário de bordo, contendo as informações de como foi o dia do estudante assistido. Ao final do semestre, há a necessidade de elaboração de um relatório pedagógico, avaliando o período de acompanhamento, apresentando estratégias utilizadas, discorrendo sobre o desenvolvimento do aluno, dentre outros aspectos. O trabalho diário é humano: observar, interagir, mediar e registrar. A máquina não consegue acompanhar o aluno no cotidiano, muito menos fazer os registros do que acontece dentro do ambiente escolar; o que ela pode fazer é pegar um conjunto inteiro de dados referentes a determinado período letivo e organizar, formando a base de um relatório (dentro de um modelo pré-estabelecido). Depois disso, a parte humana entra novamente: fazer a checagem do texto produzido, analisar se algo deve ser alterado, retirado ou acrescentado e fazer os ajustes finais. É como se fosse um sanduíche: humano-máquina-humano. Ainda é possível acrescentar uma azeitona, que é confrontar a versão final do relatório com a base de dados existente e pedir para a IA fazer uma última checagem se as anotações e o documento pedagógico são condizentes e apontar possíveis contradições. Mas em resumo, o trabalho da máquina é coexistente e reflexo direto do trabalho humano. Um acompanhamento desatento e a produção de registros insuficientes resultam em relatórios genéricos e incompletos.
Você disse preferir não ser lagarta nem borboleta, mas ficar no meio da metamorfose — o tempo da espera, em que a transformação acontece sem pressa. E, no entanto, as ferramentas que você desenvolve servem justamente para encurtar caminho e entregar a adaptação mais rápido. Na prática, dentro da sua sala, como você sabe quando acelerar ajuda o aluno e quando tira dele exatamente o tempo de que ele precisava para crescer?
Eu não encurto a metamorfose, ela tem seu próprio tempo. O material adaptado não é parte dela, é parte do casulo. O que eu encurto é todo o trabalho para fazer um casulo seguro e estável. As ferramentas utilizadas permitem construir o ambiente de transformação, mas a metamorfose em si é puramente humana. Quanto ao tempo dela, varia bastante… O trabalho pedagógico exige a observação contínua, que torna possível avaliar qual ritmo utilizar com o aluno em cada momento. Às vezes um mesmo aluno exige velocidades diferentes, dependendo do dia e do tipo de atividade. A resposta dele ao que recebe é o que vai ditar se ele precisa acelerar ou desacelerar. A observação atenta permite saber se aquela borboleta bateu asas na hora certa, se ela está sufocando dentro do casulo e precisando de uma pequena ajuda para sair, ou se o casulo começou a abrir antes das asinhas ficarem prontas. E isso faz parte da metamorfose, como se dentro do casulo acontecessem várias coisas ao mesmo tempo, em diferentes velocidades. Quando a gente menos espera, a borboleta abre as asas e sai voando. Em sala de aula, este momento é aquele em que o aluno consolida sua autonomia e reduz (ou até mesmo extingue) a necessidade de suporte.
Um aplicativo de adaptação só compensa se servir a muitos alunos — é o que justifica construí-lo. Mas o seu trabalho de apoio é com um aluno por vez, cada um com uma história que nenhum modelo prevê. O que é mais difícil: fazer uma ferramenta geral o bastante para alcançar muitos, ou mantê-la específica o bastante para não trair o aluno real que está na sua frente?
O mais difícil é uma ferramenta geral que consiga atender às especificidades. O desenvolvimento pedagógico, muitas vezes, está no detalhe. Mas como detalhar algo genérico? Não há dúvidas de que há ferramentas que funcionam para a maioria dos alunos, e isso é ótimo. No entanto, há alunos (ou momentos) que apresentam singularidades e não são atendidos por essas ferramentas. Alguns modelos de atividade eu consigo elaborar de forma que atendam a todos os alunos que acompanho, mas são minoria. Tem ocasiões em que as atividades nem são alteradas em relação ao que é passado para turma, pois a mediação verbal basta. Há casos em que as intervenções são tão pontuais, que nem compensa digitar ou pedir ajuda para a IA, mas intervir diretamente no material do aluno. E para os casos em que é necessário algo ainda mais específico, o que tem funcionado sem trair o aluno real é a elaboração de prompts individuais, pensando nas características pedagógicas de cada um. Com isso, consigo automatizar a maior parte do meu trabalho. No entanto, ainda há aquela parte que é tão específica, mas tão específica, que se for tentar passar para a máquina fazer, será mais trabalhoso e menos eficaz do que a adaptação construída manualmente.
Você é uma das autoras de O Autismo como você nunca leu, coletânea que tenta contar o autismo de dentro, pela vivência. É também o que você persegue ao estudar IA: ferramentas que personalizem o ensino para cada aluno. Mas há algo nesse aluno que você lê num gesto, num silêncio, e que ainda não cabe em modelo nenhum. O que a máquina continua sem enxergar num aluno autista e que te impede de entregar a adaptação inteiramente a ela?
A máquina tem uma rede muito grande de dados sobre praticamente qualquer assunto. A IA pode fazer o que eu solicito, utilizar todas as informações que tem acesso para dar ideias e montar versões adaptadas da atividade, mas não pode fazer a mediação direta, não consegue compreender se o aluno está bem, se está triste, nervoso, com frio, agitado, ansioso… se ela não for alimentada com registros, ela não consegue nem saber se há ou não avanços pedagógicos. A máquina não é humana e essa é a principal razão pela qual não consegue ficar inteiramente responsável pelas adaptações. Um exemplo é quando monto avaliações. A IA tem se demonstrado péssima como protagonista no processo de adaptação de provas. Não por fazer algo mal feito, mas porque ela não consegue considerar tudo o que envolve o processo avaliativo, incluindo a forma que o aluno consegue se preparar em casa, o fator ansiedade, todo o contexto escolar envolvido, como o aluno responde sob a pressão de estar sendo avaliado… Toda a qualidade que consigo com as atividades cotidianas, começa a se perder na hora de elaborar uma avaliação. Não por falha da máquina, mas por excesso de humanidade no processo. Diante disso, a IA vira coadjuvante: me ajuda a simplificar enunciados quando necessário, a elaborar imagens, alterar formato de perguntas, dentre outros. Mas quem assume o controle, considerando todas as nuances do aluno e o tipo de alteração necessária, sou eu.
Em 2015 você realizou um sonho antigo: atravessou o oceano e passou quatro meses em Moçambique, longe de tudo o que lhe era familiar. Para se aproximar de um lugar tão diferente, foi preciso estar inteira ali, sem atalho. Hoje o seu trabalho promete justamente o contrário — encurtar o caminho entre o aluno e o conteúdo. O que aqueles quatro meses te ensinaram sobre o que de fato aproxima uma pessoa de algo novo, e que nenhuma ferramenta consegue abreviar?
Não diria que meu trabalho encurta o caminho entre o aluno e o conteúdo… diria que meu trabalho constrói a rampa de acesso. O estudante, para aprender e se desenvolver, continua precisando experimentar e vivenciar o conteúdo escolar. Senão, é só maquiagem. Sobre meus quatro meses em Maputo (e todas as outras aventuras que me permiti viver), o que aprendi foi que a vida não pode ser terceirizada. A tecnologia e outras fontes de informação até podem me trazer conhecimento teórico sobre experiências, mas não substituem a vivência. Eu só sei realmente o que é viver algo, a partir do momento em que me abro para viver aquilo. Lembro de um dos meus livros preferidos da adolescência, “Coração de Tinta”, que tinha uma personagem que amava ler e odiava sair de casa. Ela achava que conhecia tudo, por causa de seus livros. Até o dia em que precisa enfrentar o mundo e descobre que, por melhores que seus livros fossem, ela não sabia o que era a realidade. Da mesma forma, as ferramentas digitais são extremamente úteis para muitas coisas, mas não dispensam a vida real. Ler e ver vídeos sobre o mar não fazem com que os pés afundem na areia ou que seja possível sentir o sal que fica na pele. As ferramentas digitais (e analógicas, por que não?) podem até enriquecer a vivência, mas a experiência física não é substituível.
Você definiu a poesia como “o ponto de escape de pensamentos e sentimentos que formam uma tempestade interior” — algo que nasce de uma tempestade que é só sua. Hoje você ensina uma máquina a montar materiais de adaptação que poderia fazer à mão, e ela escreve até poemas, sem tempestade nenhuma por dentro. Onde fica, para você, a linha entre o que vale automatizar para chegar a mais alunos e o que precisa continuar nascendo de uma pessoa, com tempestade e tudo?
O que for parnasiano, pode ser automatizado. Mas se for modernista (ou ultrarromantista), precisa de alguma tempestade. A técnica vale a pena automatizar, principalmente quando exige repetição constante. O que depende do contato e da vivência humana, não. É aí que fica a linha. A IA não consegue entrar em uma sala de aula e mediar conflitos, enfrentar comportamentos desafiadores, reconhecer o potencial oculto de um aluno e criar momentos de disciplina e afeto. Não fica feliz, ansiosa, surpresa ou emocionada. Ela não participa da tempestade humana, no máximo recebe algumas informações sobre o que está acontecendo. O que cabe à IA é a organização de informações recebidas, identificação de padrões e aquilo que independe ou depende minimamente das nuances humanas. A máquina é elemento de neutralidade e burocracia. O humano é o elemento de emoção e flexibilização.